Vendedor de Planta

by

Tentei fugir, não sei por que cargas d’água essa história nasceu em mim. Mas nasceu e mesmo eu a tendo evitado permanece… até começar a escrever… comecei. Escreverei sobre um tema que pouco me atrai; na verdade em nada me atrai. É uma realidade mais da mesma, igual, sem novidade – apesar de que consigo ver diferença sim; ou diria: indiferença? A minha indiferença por viver alheio disso que acontece. Disso: histórias como a que vou contar. É sobre a vida sertaneja que escreverei. Não sei se será boa, mas é o ato do meu pensamento se construindo, materializando. Mesmo sendo pouco airosa a mim. Realmente impressiona-me como o povo sertanejo consegue sentir emoções no meio do nada, sem nada para comer. O que penso e meus achismos não importam mais, pois o conto começa a criar forma – é um processo lento, vagaroso; é como uma escultura de argila ou uma pintura feita ponto a ponto. Meu mundo deixa de existir para dar lugar a esses personagens por quem não sinto nada, embora sinta e não queira sentir. Vamos ao que mais interessa, a vida meio assim: sem graça desse sertanejo chamado Ariovaldo. Só vá adiante se gostar de ler sobre má sorte ou boa sorte, quem define? O final ainda não é certo, porque essa passagem é incerta. Quem sabe seja feliz.

Ariovaldo é alagoano e viveu no sertão, cresceu tendo que andar léguas como se diz, para apanhar água em baldes de madeira e panelas velhas para a semana toda. Acostumou-se a comer o que tinha, às vezes, só fubá cozido. Frequentou escola até a quarta série primaria. Longe demais. Sol escaldante. Frescura para o pai: pele para ser boa tem de ser calejada, quanto mais esse menino andar no sol, mais pele de menino-homem, cabra-macho vai tê.

Aos dezessete anos conheceu Edelziane, paqueração que tinha a caminho da lavoura. Tomou-a como esposa.

Que tristeza escrever sobre essa condição de vida miserável e mais comum do que se pensa no país do tamborim.

Ariovaldo não gostava dos pelos nas axilas da esposa, sempre que recebia seu miserável ordenado (miserável, palavra que será muito repetida, porque, é como entendo viver assim, hoje; talvez amanhã eu mude de opinião), pelo trabalho braçal, fazia questão de ir à cidade comprar barbeador e Edelziane alegrava-se em agradar o marido sem pelos nas axilas. Aos vinte e três anos o casal já tinha quatro filhos e resolveram acreditar na maligna lenda de que em São Paulo a vida é melhor; mais fácil: em São Paulo se consegue tudo, se ganha bem – dá para ter TV. E “butá” (como dizem) os “mininu” na “iscola”. E assim foi…. Mudaram-se para a terceira maior metrópole do mundo. Sem a menor condição de comprar uma casa e menos ainda de alugar, vieram passar uns tempos de favor na casa de um primo de Ariovaldo: o Toinho… Rapaz de venta chata. – Sujeito “homi”.

Não me contive e ri alto agora…. Acho graça, uma graça nervosa de escrever sobre a penúria nossa refletida. Miséria constatada, catastrófica.

Passados três meses na metrópole impiedosa, Ariovaldo continuava a morar de favor com a família do primo e não conseguira trabalho, porque emprego, não conseguiria… Esqueceram de avisar aos alagoanos que em São Paulo ganha-se dinheiro quem é estudado – de boa família – comerciante – negociante. Entendeu que no máximo que poderia ser é pedreiro, mas antes, precisaria passar por um estágio: o de servente de pedreiro. Até para gari é preciso estudo… Como não conhecia nenhum mestre de obras, aliás, não conhecia ninguém, não conseguia nada. Edelziane começara a reclamar, a cobrá-lo: ta faltano leite prus mininu, num vô ficá pidinu pa muié di Toinho, ela me oia atravessado, de rabo de oio, num gosto de genti assim. Discunfio até qui num gosta da Taiziane. Pura inveja só purque num teve ninhuma minina-femi. Taiziane nossa minina é linda. E tu homi se aví im arruma logo um trabaio. Se avexe. Se avexe.  

O desespero começara a tomar conta dessa alma ingênua e incompreensiva com a vida por tamanho azar, logo este sertanejo que acreditou de fato e decerto, que melhoraria de vida na capital, nesta, essa que… tudo acontece… A palavra não parecia existir apenas para sua família, miserável por concepção.

A falta do tudo que do nada brota me paralisa em frente a essa tela, meus dedos param de dedilhar o teclado, porque, minha incapacidade de sensação profunda e iminente dessa emoção; que me toma o peito e atormenta meus pensamentos a cada dia que demoro mais para vomitar essa história… Historinha curta, que nasceu de uma cena vista na rotina tola da vida. Voltemos ao personagem primeiro, o protagonista que não é meu; nunca foi e nem nunca será… nem nada de mim Ariovaldo tem. Quem sabe o que ele carrega de mim, Deus de sua vida, seja apenas a vontade camuflada e minha de ser puro como ele. Doce como ele. Alienado e sem nada como ele.

Desesperado, respeitando o impulso angustiado da cobrança de sua fêmea, o rapaz que já é homem saiu à procura de trabalho, mais um dia de andança e procura sem cessar. Nada… Nada… Nada… Nada… Essa palavra é muito frequente na vida desse moço. Ariovaldo sentou-se num banco de praça… Amargando a má sorte ou a falta dela, olhou ao longe e olhou sem enxergar nem os pedestres que caminhavam – olhou sem objetivo ou a procura de um pouco de esperança e quem sabe uma dose de ilusão, se contagiar de tantos que passavam invisíveis pela Praça da Sé. Sentiu a falta do sertão – da lavoura – do sol escaldante. Lá as pessoas se falam. Os vizinhos sempre ajudam com tanajura torrada quando um filho adoece da garganta. Seu pensamento de arrependimento (não era pensamento, era sensação) e de como a vida estaria mais fácil se não tivesse acreditado que essa cidade tão falada, comentada e aclamada fosse como coração acolhedor de mãe. Perguntava-se o porquê mentiram para ele. Logo para ele que não vivia de mentiras, era honesto. Pensamentos empobrecidos pela falta…

Não acredito que fosse falta aquilo que ele sentira, não se pode sentir falta do que nunca sentira ou tivera. Era ausência. O que ele sentia era a ausência de tudo. Ali sentado e perdido, anônimo de si mesmo e de todos em ao redor da Praça da Sé, que de tão democrática deixa de ser mãe e passa a ser cruelmente pai; Ariovaldo notou uma presença e um certo cheiro de suor sentar ao seu lado e quando virou-se viu. O homem baixo e barrigudo que usava bigode e carregava no ombro uma caixa de plantas, ainda pequenas. O homem olhou nos olhos de Ariovaldo e soltou com intimidade de migrante:  

– Qui cara di quem cumeu e num gosto é essa rapaiz?

Ariovaldo soltou os ombros como quem sente o peso nas costas e respondeu com a mesma intimidade:

– Ando meio cheio, num cunsigo trabaio… Vim cum meus mininu pra qui pra sum Paulo e to morano di favô na casa de um primo. Tô sofrendo mais que a gota da peste… Uma cabrunqueira só.

O estranho que retratado com descrição qualquer e já muito usada, o fiz assim, porque ele consegue ser tão sem importância no mundo quanto Ariovaldo. Pior ainda, por não ser protagonista de coisa nenhuma, mas que vem trazer um pouco de sabedoria para isso que escrevo sem entender por que. De súbito o barrigudo de bigode respondeu:

– Vende pranta… óia eu compru por R$0,50 ou as veiz R$0,80 depende o dia, só as pimenta qui custa mais, chegu a pagar R$1,50 e vendu ela por R$2,50… Na pimenta como tu viu eu tiro menus. Compru uma caixinha dessa ai ó e saiu pelus bairro de madame chic, as impregada dessas muié dondoca compram pra fazê cumida cheia das frescura… Gororoba de rico.

– E da dinheiro? – perguntou Ariovaldo interessado.

– Óia rapaiz, o qui cume prus seus minunu e pa sua patroua num vai faltá. Mais mi conta aqui, ta vivendu onde?

– Intão seu moço, como lhe disse, na casa di um primu meu. U Toinho, sujeito homi. Mais é qui a muié dele é danada qui é o cão, feitu a peste. Inferniza minha Edelziane e num gosta da Taiziane,  minha minina mais veia.

O silêncio tomou os dois e balançando a cabeça em negativa o barrigudo de bigode aconselhou:

– Rapaiz sai dessa vida, ondi moru, é na zona lesti… Lá é boum. Tem um riu, invadi um terrenu lá. Eu invadi. Si quisé te levu pa fala cum homi qui é candidato a vereadô. Pedi umas tabuas, uns tijolo baiano e teia. Ele dá. Ergui um cantu pra tua famia.

– Mais homi eu num voto aqui naum.

– Aprendi a viver em sum Paulo, si naum ele ti ingoli… Eli num precisa sabê que tu num vota aqui… Mais tu aprendi a viver, aprendi sim, ainda é mininu moçu. Óia, vô anuta  meu indereçu aqui, u da minha casa. Vai lá nu dumingo. Vai tê galinhada. Leva seus mininu e sua patroua. Vamu ajeita um cantu prô cêis mora.

Não sei o que sinto, sei que me emocionei quando escrevi tal diálogo. Ainda não entendi o que é isso, se é que posso chamar de isso, tamanha minha inconformidade com essa realidade nua e crua e de um fato tão corriqueiro e escondido pelos prédios da cidade de São Paulo… um fato que eu esqueço tomando bons vinhos e banhos demorados.

– Oh moçu qual é qui é mermo tua graça?

– Óia, podi mi chamá de Zezinho do Rio e anote ai, um dia ainda vê sê vereadô.

– Ta certu seu Zezinho do Rio. Eu mi chamu Ariovaldo.

– Ô, Ariovaldo. Bom, ti ispero nu dumingu.

Assim os dois estranhos que de tão estranhos chegavam a ser íntimos… Uma intimidade quase parentesca. Ariovaldo voltou para casa mais animado, com o peito cheio de sementes que, há tempos; aguardavam água para começarem a florir. São Paulo, começava finalmente a frutificar. Deus é bom! O sertanejo sentia algo no peito crescer. Brotar. Finalmente brotar. Lembrei-me de um dito popular que definirá os acontecimentos derradeiros: a alegria de pobre dura pouco.  Verdade, como é verdade isso. Chega a ser sábio, profético. Tão pouco que quase esqueço que dura. Quando chegou a casa, a casa que era do primo e que de sua nada era, percebeu um clima estranho. O alagoano era ignorante e desprovido de muito. Era desligado e vivia em baixo relevo e imparcial de raciocínios plenos e convictos. Tinha raciocínio lento como o ano passa; mas burro de tudo não era. Tinha sensibilidade. Dirigiu-se para os fundos, onde se localizava separado da casa o quarto cedido pelo primo. E logo ao entrar viu as malas prontas. Duas. Eram duas. Apenas duas.

– Mais qui pesti acunteceu! – perguntou a Edelziane, que tinha expressão de choro e rancor na face.

– Óia Arí, eu num ficu nem mais um minutu aqui cus meus mininu, vice? Taiziane si pego cum mininu da biscatera da muié di Toninhu, pu causa de pipa. Tu acredita que a sinhá puta impurrô Taiziane? Impurrô, é, quandu foi separá a briga e disse mermo assim: saia pra lá i deixi meu fio sua amaldiçuada da custela oca. Veja si issu podi? Eu fiz foi num dizê nada, mais a vontadi era de metê uma peixeira no buxo dessa disgramenta. Eu senti foi a bubônica. Puxei essa peste dessa minina pra dentru, ô minininha essa pa dá trabaio, parece mais mininu machu. Num disse nada e vim pra qui, mais ela num se contentô naum, pensa numa muié increnqueira que é o bichu ruim, ela vir e mi oiô e disse mermo assim: issu que dá a genti da morada pa genti mitida que nem tem ondi cai morta. Foi mermo assim. Vim arrumá nossas coisa, butei tudo nas mala, juntei tudo nossos panu de bunda e num ficu mais aqui, eu tenhu é vergonha na minha cara. Se tu quisé fica ai, fiqui, eu vo me embora cu meus mininu.

A alagoana era provida de um orgulho profundo, imerso no submundo existente na alma sua; submundo esse criado e alimentado por todas as suas inseguranças, vindas de suas frustrações primeiras de não saber quem é e ter a certeza de que não é. Havia no universo dessa mulher a vontade do silêncio uterino e o sossego do aconchego de mãe; por mãe, tão cedo ter se tornado. Se estivesse sozinha teria saído porta a fora depois de uma briga, rompante. Mas não, era agora esposa e mãe. Esperou o marido para anunciar sua decisão aceita por ele que entendia dessa tal honra orgulhosa, essa vergonha na cara que eles entendiam bem, mas que eu, em minha insignificância de ser, ainda não compreendi. Ariovaldo entrou na casa e conversou com o primo, agradecido pela estadia despediu-se de Toinho. O primo infeliz, por sua vez, não fez questão de entendimento e reparação e menos ainda da presença pobre e reprimida do sertanejo filho da Tia Carmozina. O alagoano, sua esposa alagoana e seus filhos alagoanos… a família de intrusos como estranhos no ninho, apanharam as malas e foram embora. Saídos da casa de Toinho. Juro que eles saíram e que não sei dizer para onde iriam, não consegui imaginar onde esse orgulho e vergonha na cara podiam levá-los, talvez, por não conhecer o sentido do que se trata. E aqui nessa brincadeira de Deus, sentado à frente da modernidade, escrevi e vi, avistei uma árvore ao longe. Grande e de espécie rara e que não escreverei o nome para que se possa imaginar com liberdade a árvore que existir no ato do verbo ler.

A família acomodou-se em baixo de uma grande árvore… Era imensa a árvore. Pernoitaram ao relento, como deveria ser ou não. Já não tenho mais certeza do destino dessa família. Apenas que são miseráveis e que nessa condição, estavam mais desafortunados do que nunca. As crianças sentiram frio. Edelziane acordou em susto. Sentiu falta do marido ao seu lado, percebeu por não sentir o calor de seu corpo junto ao dela. Mas o viu sentado ao longe, ainda no gramado. Ariovaldo chorava. Corriam as lágrimas. Voltou à infância naquele momento quando pedira a avó uma dessas chupetinhas de caramelo que vendia no bar do seu Béco e a avó não tinha dinheiro para comprar, Ariovaldo ainda menino sentou-se na calçada de barro, o sol estalando e chorou, chorou e até então, ele nunca tivera provado o sabor do tal doce. O mesmo se repetia agora depois de adulto, o desejo de ter para onde levar sua família, de ser o provedor da casa e de dar à fêmea tirada de seu pai, tudo o que ela precisava e deixar nos filhos a lição e a lembrança de ter sido um grande homem. O choro de agora era rouco e engasgado, chorava e sentia e se sentia, chorava e entendia a tragédia de si mesmo. Soluçava como a criança que foi. A esposa presenciava o desespero do marido e sofria junto, sentia calada o que sentia o marido. Nada disse. Pois era rica de nada. E calada aproximou-se do homem vestido de menino, ou desnudo de homem e o abraçou, apenas. Adormeceram ali. Quando Edelziane despertara com a pequena bagunça dos filhos viu que seu marido não estava, mil pensamentos lhe ocorreram, mas uma única certeza: ele vai voltar. A mulher sentou e esperou.

O único trocado que Ariovaldo tinha no bolso foi o que usou para apanhar um trem sentido uma cidade da zona leste, era lá que morava o Zezinho do Rio. Pediu informação de como chegar ao endereço. Estava diante do Rio que ficava facilmente de frente à estação de trem. O lugar era vermelho por causa do barro. Crianças corriam e soltavam pipa, livres e ao mesmo tempo presas a falta de oportunidade que enfrentariam na vida futura. Muitas descalças e sujas, outras peladas e com catarro escorrendo, muitas com a pele manchada e barriga grande. Algumas brincavam alegremente no rio sujo.

Quanta ilusão acreditar que em São Paulo tudo é maravilha e novidade, eis uma novidade: existe pobreza insolente, ainda, das sérias. E no país de Ariovaldo, tão rico e poderoso existe mais miséria do que felicidade. Não sei por que escrevi isso, me repito às vezes, é que tenho apetite ao grito e quando ela me vem, eu grito. Tenho horror à pobreza, nada entendo e o que entendo é a falta de alguma coisa. Eu já vivi a pobreza, mas nunca me dei por vencido e busquei o conhecimento, pois, a falta dele é a verdadeira pobreza. E agora sei, escrevo para deixar contado que em pleno século XXI, viveram por aqui, famílias à base de lágrimas e pão. Não sou hipócrita, porque, me importo. Só não sei por que me importar se quem pode e precisa não se importa. Mas o que acontece em seguida é que nesse lugar que, hoje, já tem asfalto em alguns lugares e os barracos estão sendo substituídos por casas de tijolo baiano e telha, é povoada por boa parte da classe proletária desse estado. Nesse lugar que recuso contar o nome, para não ofender a dignidade que nele habita, foi aonde chegou nosso personagem primeiro e bateu à porta de Zezinho do Rio. O homem barrigudo e de bigode não estava, disse a mulher que fora vender planta. Ariovaldo esperou… Esperou… Esperou… esperaria a vida inteira, não tinha o que fazer a não ser esperar e esperar e como dizem: quem espera sempre alcança. Tive um riso de sarcasmo com esse dito popular.

Zezinho do Rio chegou e a ajuda prestou. Zezinho tinha uma esposa gorda e de venta grande, preta de cabelos bem puxados e amarrados, suas vestes eram limpas como uma nuvem; mesmo sendo desprivilegiada. Dorotéia como se chamava, não se surpreendera com a história do migrante alagoano, mas caiu em desespero quando soube que os filhos e a esposa estavam ao relento, com fome e frio… Saiu feito louca e juntou mais uma ou duas vizinhas e colocou-se a preparar lanches: pão com manteiga e leite com achocolatado, tudo bem quente. Era o que tinha; o que podia oferecer. A vizinha trouxe bananas, também, era o que tinha… O que podia oferecer. Tudo era pouco e que se formou muito. Diante da solidariedade dos semelhantes. Zezinho tomou emprestada uma perua velha, com escapamento barulhento e saíram todos para encontrar a família de Ariovaldo. Quando a perua velha parou e Edelziane viu o marido, seu olhou brilhou, resplandeceu a alegria que não sentira nunca. Seu peito aliviou… teve a certeza que escolhera bem o homem para viver a vida.

Estou tomado pela emoção. Não sei… Fui tomado pela revolta da ira. Pela insatisfação partidária dessa república de merda… Essa democracia de besta. Choro na solidariedade humana.  

Vou findar, não consigo mais permanecer com esses personagens. Juro que não dá. As crianças comeram como mortos de fome… Edelziane não sentia fome, sentia piedade de si mesma e de suas crias sem futuro. Dorotéia ajudou a mulher calada a colocar os filhos na perua e entrou. Observando e sentindo cada sensação e suspiro de tranquilidade, percebera um olhar mais esperançoso da mulher que acabara de conhecer e que se tornaria amiga e vizinha.

Por um voto, o candidato a vereador da cidade doou materiais de construção para Ariovaldo, que com a ajuda de Zezinho levantou um casebre de tijolo baiano e telha, chão rústico. Depois de tudo pronto, a vizinhança não se fez de rogada e mesa, cama velha, colchões sujos e um pouco de arroz e farinha de mandioca não faltou à nova família vizinha. Ariovaldo comprou uma caixa de planta com dinheiro emprestado de Zezinho e saiu a vender… Depois percebera que se levasse uma caixa em cada ombro, ganharia mais e assim, passou a sustentar miseravelmente sua família. Não faltava mais “mistura” junto com o arroz e o feijão. Às vezes, tinha alface e tomate. Aos domingos, macarrão com ovo frito. Edelziane aprendeu com Dorotéia a fazer salada de maionese com batatas e cenouras. A televisão veio em seguida, um sonho realizado: agora podiam ver a novela e desenhos violentos, além, de filmes de ação, além, de despertar desejos por coisas e sonhos que aquelas pessoas jamais conseguiriam adquirir. Edelziane conseguiu vaga para os filhos numa escola perto e comprou um caderno, um lápis e uma borracha para cada um. Os três filhos mais velhos foram felizes estudar. Teriam a honra e oportunidade de conhecer uma professora. De ver uma lousa. De se sentirem dignos de alguma coisa, qualquer coisa que fosse. No primeiro dia de aula a professora disse:

– Aparecido, fale mais de você para a turma… comece nos dizendo o que faz seu pai?

E o menino mais velho respondeu, com sorriso na face:

– Pussora, meu pai é vendedô de pranta.

A professora o corrigiu:

– Se diz professora, Aparecido, professora. Não é pranta, é planta. Continue.

E o menino inocentemente continuou:

– Professora, pode até ter planta, mas o meu pai é vendedô de pranta mermo. E eu, quando crescê quero sê como eli, vendedô de pranta.

Nenhuma palavra, frase, estudo, teoria define. Com o tempo ele aprenderia… Escrevo sobre o exemplo e o futuro que se daria. Já na casa antes de sair para trabalhar, é com ele que quero terminar, pois, com ele comecei. O alagoano vestiu sua camiseta regata, colocou sua bermuda e calçou seus chinelos; a mesma roupa de todos os dias. Sentou para tomar café preto e puro, porque não tinha o costume da refeição matinal e introspectivo em seu silêncio refletia. Foi quando soltou:

– Sabe muié, tavu pensanu com meus butão. Ta tudo se ajeitanu… sum Paulo num é tãum ruim assim…

Termino aqui, mas essa família continua a viver… Vergonha é o sentimento propriamente dito, declarado sobre o que escrevi e já li que tantos outros já o contaram, mas eu precisava na contradição do que sou e escrevo… Escrever e olhar com olhos mais verdadeiros e nus, crus para este país abençoado por Deus.

 

Direito de imagem reservado – Robson Patriota

Fonte da imagem: https://sertaniavip.blogspot.com.br/

https://sertaniavip.blogspot.com.br/2013/06/por-do-sol-no-sertao-de-pernambuco.html

Comentários

comentários