Saudade dos meus dias

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Aqui… os anjos vestem azul marinho, os assistentes branco… Bem feitores, verde.
Entre tremedeiras, mascaras, comprimidos e a visão turva para o cemitério Araçá na Dr. Arnaldo, onde descansam segredos de outras vidas coberto por arvores formosas; encontro motivos para voar. Escapar pelas persianas. Enfeitar a mente, sair dos pensamentos. Encontrar o céu. Colher flores, ensaiar salsa e rir para si mesmo.
Os assistentes estão me dando folga nos últimos dias, poucas agulhas. A infecção no cérebro cessou. Sem febre, pressão normal. As plaquetas no esôfago não sumiram, ou estão atacando novamente. Os superiores vão avaliar.

Novos exames.

O que é adoecer! Ver o tempo passar… O que fiz eu, que não posso aproveitar?
O paladar tem o sabor amargo dos antibióticos, a boca é seca, não pode faltar água, suco. Quero suco, é docinho. O espaço começa a se limitar – a vontade de pão de mel recheado com doce de leite, sonho de creme e bolo prestigio só tende a aumentar. Pedi para minha irmã bolo de fubá. Erva doce não pode faltar, fresquinho como manda o figurino. Estou com saudade das minhas coisinhas. Dos meus travesseiros e da barulheira da entrada da Radial. Estou com saudades de mim, do meu banheiro. Da minha pele em rubor, hidratada. Do corretivo aliado das minhas olheiras. Queria ver minha pedra lilás, desenhar a barba. Passar no Ezequiel, cortar o cabelo. Tomar açaí na esquina do Bexiga e almoçar no Bambuí com a Carol e depois ir trabalhar. Que saudades das ruas de todo dia, das calçadas da Bela vista; do meu caminhar.
As picadas diminuem. Os remédios continuam, a peste se acua e eu quando vejo o cemitério, não me desespero. Tenho fé e posso esperar. Os doutores se vão, mudam os anjos e os assistente e já é hora do jantar.

Publicado originalmente em 4 de novembro de 2015.

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