Ressaca de quarta-feira de cinzas

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A quarta-feira de cinzas amanheceu nublada, já aconteceu em muitas outras ocasiões desde que me conheço por gente, essa estava diferente. O cinza era mais acentuado, fiquei impressionado em correr e caminhar pela avenida Paulista depois de sair da terapia. Ainda meio vazia, como de costume a engrenagem só começa depois do meio dia, as pessoas estavam cabisbaixas e menos apressadas – era um ar de ressaca, ar de quem pede: não acaba não carnaval…

Ressaca, essa é a palavra. Ressaca de carnaval, principalmente, depois de um show de democracia humana que foi nosso carnaval pelas muitas ruas de São Paulo (não posso deixar de agradecer o ex-prefeito Haddad por ter revitalizado os bloquinhos que agora já estão à la Salvador).

Que coisa linda!

Gente de toda cor, gente rica e pobre misturada, todos os tipos de fantasias, desde homenagens, as engraçadas e manifestos interessantes. Foi delicioso! Eu fui, é, suei, pulei, tentei sambar e acabei apenas balançando os dedos indicadores e no pé – um pra lá, um pra cá… Aprontei, gargalhei e procurei por horas um taxi. Os taxistas deveriam estar nos blocos também, vai saber.

Carnaval é essa festa que serve para nos desconectar das responsabilidades e que faz a gente viver e aceitar um pouco da loucura interna e contida que a sociedade faz questão de oprimir (o que é necessário até certo limite, imagine carnaval todo dia). Entre flores, plumas, paetês e no meio de piratas, índios e moças mascaradas usando maiôs; a gente viu de tudo. Não faltou exagero de bebida, droga, beijo na boca e eu pergunto: e daí?

Vi um amigo que é médico reclamando de seu plantão… Pensei: ué, quem mandou escolher ser médico? As pessoas abusam mesmo e isso é em qualquer festa, agora, numa festa em massa é claro que o trabalho vai ser em massa. E claro não faltou o bando de sem noção, os “mimimi” da vida reclamando da sujeira das arquibancadas do sambodromo. Por favor! Tem quem limpe, gente.

Brasileiro não tem educação de qualidade, cobrar como? Talvez na hora poderia ter alguém conduzindo sobre o que fazer com o lixo, mas não tinha. Já fui uma vez e sei como é. O lugar é fechado na base de ingresso comprado, e no valor já está incluso o salário de quem vai limpar. Pior foram as ruas da cidade, os bueiros é que são os problemas maiores e as pessoas educadas dos blocos vão pensar nisso como sob efeito da bebida e do lança perfume? Teve até doce que eu vi. Mas nisso preciso tirar o chapéu para o detestável prefeito João Dória (um salve para Zeca pagodinho que fez o prefeito passar vergonha nas fotos das revistas, jornais e memes da internet), o serviço de limpeza foi muito eficaz esse ano. Já banheiros químicos nem tanto. Até a mulherada se rendeu as moitinhas…

Uma amiga me contou que um grupo de trombadinhas monopolizaram alguns banheiros e ficavam cobrando para deixar que os foliões dessem sua mijadinha, acontece quando não tem fiscalização e principalmente, quando grande parte desses que querem um carnaval seguro nos blocos não gostam de uma política de distribuição de renda eficiente. Esse é o resultado, meus caros. Tirando essas questões, vão dizer que teve barbáries, mas teve mesmo, sempre vai ter. Elas existem desde que o mundo é mundo, porém, as de hoje são ainda mais amenas por mais que a gente encare como barbárie absoluta.

Nesse carnaval o que alegrou meu coração foi ver o povo, é, o povo… foi ver todo mundo desligar e se entregar pro samba, pro axé, pra fantasia, pra alegria, pra loucura, tudo o que estão nos privando cada dia mais de ter e ser. Foi lindo de ver e viver… “Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar, o morro foi feito de samba de samba pra gente sambar”. Em 2019 tem mais.

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