Rasga Coração (crônica de natal)

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Em 2004 fui convidado por uma louca chamada Lilian, para adaptar e dirigir a peça Rasga Coração, digo adaptar pelo fato da peça não ter fim. Oduvaldo Viana Filho faleceu antes de concluir a peça escrita até quase o final de seu terceiro e último ato. Foram tardes ensaios maravilhosos, me lembro como se fosse ontem.

De repente treze anos se passam e eu vejo a peça adapata para o cinema. Corri assistir na estreia e olha, um maremoto de emoções. Eu pude reviver cada momento que tive com uma turma de estudantes militantes de suas vidas.
Os ensaios, as tardes de domingo. O Rodrigo que fazia o personagem principal, o Custódio, mais conhecido como Mangará; viveu o personagem até o último fio de cabelo. O Fabinho era a personificação do personagem do Bundinha, como a gente riu, como a gente chorou e cresceu, e vendo o filme, eu ri tanto, chorei mais.

A Nena interpretada ricamente por Drica Moraes, teve vida com a Paloma, que a fazia com a mesma maestria, um talento que dava gosto. As oficias, as brigas. A peça trata sobre a ditadura militar, sobre revolução, sobre o como o passado, presente e o futuro se misturam na vida. Marco Rica fez um Custódio adulto tão delicadamente no filme, um afago a qualquer espectador. Misturar essas emoções do ontem com o hoje mexeu muito comigo e me fez refletir sobre nossas militâncias, nossas lutas e se realmente vale a pena.

 Pensei no nosso ano e em como esse texto me abriu… Não conseguimos apresentar a peça por falta de patrocínio. Mas foi um ano lindo aquele. E eu agradeço por ter convivido com aquelas pessoas que nem imagino por onde andam. Que filme perfeito, que presente do cinema nacional num ano de tanto retrocesso. Aquela história é para rasgar nossos corações mesmo, nos alertar para que não deixemos que apaguem nossa história.

 Sei que não tivemos um ano fácil, foi desafiador o tempo todo, ao assistir o filme e sair comovido e de olhos inchados, aos frangalhos de nostalgia tive a certeza de que lutar sempre, calar jamais. E me lembrei de uma frase do Shakespeare que eu gosto muito e quero dividir com vocês, “enquanto houver um louco, um poeta e um amante, haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.”

Feliz Natal.

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