Quem agradecer?

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Se eu pudesse agradecer, quem agradeceria? E você, quem agradeceria? O que agradeceria? São tantos os motivos para exercer a gratidão… Mas o que agradecer? Por que agradecer?

Eu agradeceria ao universo, por ser parte dele. Mas porque agradecer se sou parte dele e se ele é o todo? Não existe nada mais completo, grandioso, poderoso e misterioso quanto o universo, penso eu. Quem você agradeceria, Deus ou aos deuses? Oxalá? Buda? Jesus? Maomé? Jeová? Osho? Iemanjá? Alá? Allan? Chico? Mamãe, papai? Um tio, sua avó? Seu médico, sua psicóloga? Seu gato, cachorro? Seu marido, seus filhos? Seus professores, chefe? Seus amigos? Quem?

Agradeceria a si mesmo, por quê?

Quando sol brilha, é porque queima. Se esfriar é porque esfriou… Se há transito, é porque é tempo perdido… Para que agradecer?

E agradecer demais pode? Por tudo, por nada? Seria a gratidão, obrigação?

Sei não… Aqui o pensar é assim, já eu; eu penso que agradecer é gentileza. Pura gentileza. Nada é obrigação, nem agradecer, nem aceitar; nem entender, nem querer – nem cuidar… Obrigação é apenas respeitar. São tantos os olhares desertos, tanta profundidade escura e vazia. E essa mentira que nos contamos todo dia para suportar as obrigações? Pouco nos voltamos para nós mesmos, jogamos tudo para o mundo como quem diz: toma que o filho é seu. Tudo está no mundo porque está em nós e somos assim; parte de tudo, um do outro. Respeitar não é entender, não é aceitar, não é querer… Respeitar é saber… saber dividir, saber compartilhar… é entregar um pouco de você.

É fim de noite e a cidade ainda não parou se é que vai parar. Os carros estão congestionados e posso quase afirmar que tem muita gente estressada presa sozinha dentro de um automóvel, tentando desesperadamente chegar em casa e tomar um banho fresco. Hoje o sol castigou merecidamente os seres humanos… Essa pessoa não tem o que agradecer, ou tem? Tem. Tem sim. Ela escolheu comprar um carro. Ela optou em estar sozinha dentro dele. Ela optou em sair em horário de pico. Ela tem motivos para agradecer a própria desgraça. Que agradeça!

Tudo isso, para concluir assim:

– Eu agradeço pelos crimes de nossos políticos, fomos nós que os colocamos lá. E agradeço pela falta de justiça e a sensação de derrota e fracasso que insiste em ficar.

 Sem mais.

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