Provocação

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 Alice, um jovem ambiciosa, diria – gananciosa. Come em bons pratos.Talheres de prata e seu condomínio é o valor do aluguel de muita gente. Frequentadora das melhores boates, vive em fotos com amigos lindos e igualmente finos. Veste as melhores marcas, todas, não lhe falta nenhuma. Inclusive grifes, e acha isso mais que fundamental, é necessário para preencher um vazio que ela desconhece, apenas sente.

Toma pro-seco, não porque goste e sim porque é bebida de gente “bem nascida”. Pouco se importa com bons costumes e as boas maneiras, a educação é só mais um clichê elitista da sociedade brasileira; que ter dinheiro supre a falta.
Alice, acha tudo no Brasil tão pós-moderno e gostaria de viver num mundo pós-futurístico. Tem anseios por Milão, mas não fala italiano. Pensou nos Estados Unidos, mas não sabe o que quer dizer “how are you?”. Ri de pobre, gordo, negro, magro, baixo – abomina de fato as minorias, só gay não.

Será que Alice é gay?

Presenteia as empregadas com o que sobra de seus perfumes e cremes… Ah! E no natal gosta de dar uma coisinha a mais, então, compra panetones para as pessoas da cozinha.

Ela se acha a melhor em tudo… Absolutamente tudo. No entanto, tudo isso só existe nas fantasias de Alice, porque, na realidade:

Alice é vendedora e das boas, vive numa kit net no centro de São Paulo, paga seu aluguel com esforço tremendo e nunca convida ninguém a ir em sua casa, tem vergonha de servir uma refeição e que os amigos vejam seu talher de cabo plástico. Lençóis de quinta categoria, mas limpos, Alice tem mania de limpeza.

Frequenta festas e badalações à custa de pequenos golpes… Compra roupas de marca em suaves parcelas  e tem dias que não tem nem para o almoço, mas suas compras estão devidamente registradas no instagram.
Alice se acha linda, mas não se deixa ver sem maquiagem… Tem sempre uma desculpa quando se trata de dinheiro. Alice, pouco sabe ou nada sabe se dividir com os outros, compartilhar. Se apaixona por gente interessante, mas só namora gente malhada e só se tiver grana, caso contrário você nunca tocará na “desejada” Alice.

Nunca leu um livro, espera, sim, leu sim, Zíbia Gaspareto, ainda no colégio; ou foi a bíblia – não me lembro. Veio do interior tentar a vida como alpinista social. Não tem nível superior, mas usa Calvin Klein e beija o ombro em forma de provocação.

Alice resolveu sair do mundo das maravilhas e vir viver em São Paulo.

Onde encontrar Alice?

Procure entre seus conhecidos, de certo, terá alguma. Não é uma ou duas, são tantas, aos montes. Nunca esteve tão na moda esse tipo de pessoa e de vida. Uma vida de ostentações, focada na opinião do outro sobre mim, na obsessão de mostrar para o mundo aquilo que não sou, não tenho; mas gostaria de ter. Elas podem ser lidas em “um bonde chamado desejo” de Tennessee Williams e vistas em filmes como ” bonequinha de luxo” e “Blue Jasmine”. E se você der uma “espiadinha” no mundo gay, vai encontrar várias – só que nos próprios gays (mas salvam-se alguns).

O fato é, um dia o chapeleiro maluco some, a rainha de copas é derrotada, o gato não dá as caras e o filme acaba.

O que será de Alice?

Dessas Alices, quando quem paga a conta não quiser mais seu “rostinho bonito” por já ter sido maltratado pelo tempo?

No fundo Alice quer apenas trocar de conto, deixar de estar no país das maravilhas e entrar de vez para o time de princesas Disney, coitada de Alice, ela se esquece que para ser princesa é preciso nascer de rainha, ser filha de rei – caso contrário, nem com todo o ouro e a prata do mundo Alice, será da realeza.

Escrito originalmente em 17 de março de 2015. Título original ” Do país das maravilhas a cidade de São Paulo, Alice”.

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