O verbo SER

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Verbo é o nome dado à classe gramatical que designa uma ocorrência ou situação.. e essa simples palavra tem muita força em nossas vidas, que ainda, não nos demos conta da potencialidade da sua ação. O verbo ser é um tanto quanto retórico, eu diria…
É justamente sobre este verbo que vou escrever: o ser. Eu sou, Tu és, Ele/ela é, Nós somos, Vós sois, Eles/elas são.

Conjuguei o verbo ser no presente, pretendo tratar sobre quem somos no nosso cotidiano. Esse verbo às vezes parece banal ao ponto de dizer o “eu sou” fazer parte dos nossos diálogos mais comuns, das conversas de botequins. “Eu sou” é sempre dito de forma afirmativa como se tivéssemos a certeza de sermos alguma coisa. Como tivéssemos uma profunda certeza do conhecimento acerca de nós mesmos. Temos essa certeza, até o primeiro problema aparecer, quando a dificuldade nos perturba e principalmente, quando precisamos superar nossos limites.

Quem “eu sou”? Sabemos de fato quem somos? Conseguimos viajar até as complexabilidades mais profundas e desvendar quem somos?

Não reconheço meus limites, às vezes me surpreendo com minhas contradições e atitudes. Dificilmente tenho as mesmas opiniões sem modificar uma frase, uma vírgula. Não posso, sendo um ser inacabado e rotulado, cometer o suicídio de me terminar, de finalizar minha única e original: meu ser. Não posso afirmar “eu sou”. Aprendi isso vivendo, me arriscando.

Não podemos apostar no “tu és” (em quem o outro é), o que podemos é ter uma percepção falha e interpretativa, colocando sempre nossos valores e outras experiências num certo tipo de comparação inevitável de quem o outro é. Essa atitude é demasiada perigosa, é o que chamamos de julgamento. Dizer quem “tu és” é afirmar te conhecer, e a gente não conhece o outro, não mesmo. Sábio já era Machado de Assis que escreveu “o coração é a região do inesperado”.

Já o “nós somos” é intensivamente gritado, escrito, dito, cantado e cantarolado aos quatro cantos por casais, que acham que se conhecem, acham que o que sentem é suficiente, que acham que não conseguirão viver um sem o outro. Acham principalmente serem donos um da vida do outro, posse das mais genuínas. E quando ouço esse “nós somos”, penso: cada um se ilude com o que pode. E lembro o quão genial foi Nelson Rodrigues quando escreveu “o ser humano tem sede de mentira” e disse mais “o ser humano é o único que se falsifica”.

As demais conjugações no presente é apenas o plural das mesmas contradições que insistimos em continuar experienciando. Mas se dentro da minha insignificância humana eu pudesse definir o que é o verbo ser… Seria algo bem precioso.

Ser é mais do que ter. Ser é ter a si mesmo, seus valores, suas buscas, suas perdas e ganhos. Ser é evolutivo… É tornar-se o que se quer ser. Ser é saber o significado da necessidade de percorrer o caminho escolhido sem culpa, compreende? Ser é consciência e capacidade de se enfrentar diante do espelho quando ninguém mais está e você percebe que naquele momento longe de qualquer máscara, você é o que está vendo, o que está sentindo vibrar dentro do peito. Ser é ter a contradição nas mãos e aceitá-la com toda a sua racionalidade. Ser é essa sensação de estar e a incerteza de permanecer. Querer ser complica no que se realmente é. Ser é a consistência flexível do aprimoramento humano.. Tornar-se alguém não é uma tarefa tão fácil, é doloroso e quem é que quer passar por dores voluntariamente? E se eu pudesse definir o verbo ser numa palavra eu diria:
– Ser é absurdo.

Crônica escrita originalmente em 2010 e reescrita para o blog Feliz por Nada em 08/04/2018

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