O que não foi dito.

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Dois jovens se conheceram por amizades em comum. Um deles encantou-se pelo o outro. A desenvoltura de um e a atitude desinibida do outro chamou atenção. O encanto tinha um quê de mistério… de um segredo bom. Perceberam que por trás daquela explosão de sensações existia sensibilidade. Algo de profundo e íntimo. Era como se um deles usasse suas armas para ser desejado. Fizeram certa amizade, conversaram algumas vezes e o encanto foi aumentando. Até que resolveram se encontrar num bar da cidade. Lá, a música de fundo era assim:

“Oh meu amor eu vou pra Bahia, talvez volte qualquer dia… hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar”…

E então os encantados foram se percebendo… crescendo no compasso das batidas do coração, no espaço ofegante da respiração. Mãos trêmulas, clichê que acontece com todo mundo.

“Os olhos e, além disso, a maneira de olhar, aquele brilho opaco e sereno no comportamento inquieto e sereno. Os traços do rosto e o cabelo fino. A barba por fazer. A postura quando fala. As piadas proferidas na hora certa e o silencio quando alguma coisa precisava ser dita: um sinal que fosse. A roupa que caia como uma luva por passar a impressão de que ele não se preocupou em escolher. A voz… A voz penetra, a voz ficou em meus ouvidos… ainda está. O cheiro. O cheiro era mais que bom, conheço o perfume, não lembro o nome, mas o cheiro era peculiar. O cheiro ficou em minha pele. E também o desejo pelo gosto. Realmente o que está acontecendo comigo? Ele mexe comigo, e muito. Não estou conseguindo entender os sinais, logo eu que sempre consegui. Consigo nada, quando estou interessado não sei perceber nada, me confundo todo. Principalmente quando o interesse é verdadeiro. Deus! Quantos “serás” em minha mente… Um único sinal, já ajudaria, ou quem sabe um sinal direto… só uma luz bastaria”.

Esse foi um pouco do pensamento de um deles, o do outro era e é ainda um mistério quase sagrado. A noite foi passando e a conversa aumentando. E afinidades sendo percebidas. Mas algo os bloqueava. Algo os impedia. Algo implicava no medo do primeiro interessado. A insegurança dada por uma autoestima que não estava bem resolvida depois de tantos traumas.

Porque será que algumas feridas, mesmo, cicatrizadas ainda doem quando chove?

Pouco a pouco o primeiro interessado começou a sentir melancolia. E a conversa foi longe. Falaram de sentimentalidades intimistas. Segredos de liquidificador como cantou Cazuza. A noite estava acabando e nada de concreto acontecia. Tudo ficava subentendido… entre linhas. Realmente depois de longo bate papo o que estava interessadamente entregue, foi constatando que o outro era mesmo sensível, carente. E que ele também tinhas medos e que vivia algumas coisas para fugir de certas angustias. Medos… Dores… Só tomam conta de almas interessantes. Seres sem definição e que se flagelam pela obrigação social de se definirem… A noite finda e depois de uma carona o jovem interessado pensou já pronto para dormir.

“Acho que não vai rolar. Mais uma vez… Sempre assim quando me interesso por alguém. Impressionante! Ando cansado de ser escolhido. Porque só comigo? Nunca ninguém que me interessa de verdade investe em mim. Vou sair dessa vida. Acho mesmo que nasci para os pequenos romances ou nem. Só queria um estranho que me quisesse, por mar, por terra ou via Embratel.

E ouvindo Cazuza adormeceu. Do outro lado da cidade o que interessou chegou em sua casa. Comeu qualquer coisa. Tomou banho. Ligou seu ipod e ouvia Cazuza quando pensou:

“Cara… Ele é tão bacana. Que cara mais sensacional… Mas sei lá. Não disse nada. Ele é diferente. Mas não sei se devo. Não quero que ele se iluda. Não sei se posso me dividir com alguém. Nasci para pequenos romances. Sei lá. Estou com sono”. E cantarolou: faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom…

E cantando Cazuza adormeceu e o que não foi dito, ficou sem se dizer.

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