O nome do pai

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Todos os dias quando passo em frente a igreja tenho o costume de fazer o sinal da cruz, puro catolicismo e veja você, nem católico eu sou. Vindo de uma família católica e uma criação católica aderi o gesto e também por ter fé. Tenho fé em tudo, afinal, Deus é tudo – vivemos sobre o corpo de deus e somos a manifestação dessa força oculta e genuína, que não tem barba branca e não está sentado no trono sagrado ao lado de seu bom filho a nos julgar… Isso não vem ao caso e sim que hoje passei em frente a Igreja Imaculada Conceição na Brigadeiro Luiz Antonio e esqueci de fazer o sinal, passei e pensei – agora já foi.

E isso me remeteu à um episódio de minha infância. Lá pelos meus cinco anos de idade eu ia com minha madrinha para sua loja, ali na Maria Joaquina no bairro do Brás e passávamos todos os dias de carro em frente a uma igreja grande e cinza, um certo dia eu não quis fazer o sinal da cruz. 

Foi um escândalo!

 Uma afronta a minha madrinha e suas tradições, mesmo sendo ela do tipo que não gostava de meninos; se é que me faço entender. Ela parou o carro, ameaçou me bater se eu não fizesse  “o nome do pai”, e eu me recusava e achava divertido dizer não. Passei a manhã de castigo no estoque da loja, ela me disse que eu só sairia dalí quando pedisse desculpas e fizesse “o nome do pai”. Logo eu que era educado por uma vó autoritária e que a palavra desculpa não existia em seu vocabulário.

O fato é que o senso de transgressão que não era sabido mas era sentido, me proporcionava o maior barato ainda tão pequeno. Talvez eu passaria o dia inteiro alí, contudo, fui salvo por Leticia, uma amiguinha pouco mais velha que era filha de uma outra lojista. Éramos unha e carne, passávamos o dia juntos. Quando ela chegou para brincar e avisada do castigo veio até mim e disse:

– Eu trouxe minha lanchonete do MC Donalds pra gente brincar, acho melhor você pedir desculpas e fazer o sinal da cruz.
– Tá bom. Respondi interessado brincadeira.

Chamei minha madrinha, pedi desculpas e fiz “o nome do pai”. Assim pude sair para brincar. O espirito de rebeldia já me habitava desde muito cedo, só não via quem não queria. Hoje eu não sou diferente, até tentei, mas machuca a gente tentar fugir de quem a gente é de verdade, isso sim é uma afronta. E o sinal da cruz de nada adianta sem se ter fé. E ela, a fé, não pode ser medida por um sinal: em nome do pai, do filho e do espirito santo. Amém. Eu ouvi um amém?

P.S. Depois de um tempo Leticia e eu nos separamos e crescemos, nunca mais nos vimos e hoje eu senti saudades.

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