O jantar com Sofia (DOIS OU TRÊS ENCONTROS – parte 3)

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“Chora”, disse Sofia sentada à mesa do restaurante japonês na Rua Pamplona. “Sem graça, não vou chorar, só estou com medo”, respondi folheando o cardápio; “passamos a noite juntos novamente e dessa vez foi diferente”. “Diferente como?” perguntou Sofia já decidida no que pediria e chamou a garçonete, “um temaki de salmon com cream cheese, por favor, e uma Stella para beber”. “O mesmo pra mim, por gentileza” disse eu a garçonete e continuei, “diferente, você me entende… Ele é sempre tão atencioso e na cama é algo que não consigo descrever o quanto gosto, vou te poupar dos detalhes, hoje pensei nele o dia todo e agora pouco ele me ligou e eu não atendi… Estou morrendo de medo”. “Do que, de se envolver? Para palhaçada né?! Qual o problema em se envolver com ele?”. Questionou Sofia. “Todo, esse tempo sozinho e sem falar que ele nem falou em relacionamento, acho que não consigo mais, preciso de psicanálise, todos os fantasmas saíram do baú Sofia e você os conhece bem… Amiga, não sei o que fazer…”. “E você quer que eu te diga? Não sou a pessoa mais apropriada para isso, olha minha vida sentimental, sem um relacionamento há anos e sexo idem… Meu, se você está a fim se joga. Você já sofreu outras vezes, se tiver que sofrer novamente qual o problema?” disse isso rindo e se contendo “estou brincando, o que você está sentindo, todo esse medo tem haver com o Mr. Self?”. “Sim”, afirmei. “Tudo ia tão bem, e considerando que com o Pedro a vida sexual é mais animada, o perfil é parecido, sabe? Inclusive a profissão é a mesma, aquela que não pronunciamos para não atrair”, contei eu como quem conta um segredo. “Sei, aquela daquele pessoalzinho excêntrico ao extremo e que pregam o que não fazem?”; afirmei positivamente com a cabeça, “eu também teria medo” respondeu Sofia. “Só não esquece que o Mr. Self é o Mr. Self e o Pedro é o Pedro”.

E em pleno outono dois amigos comeram comida japonesa e beberam algumas cervejas, antes de subir a Brigadeiro a caminho do metrô. Sofia enfrenta problemas sérios, idealizou um homem e não consegue perder um pouco de tempo com outros, e pior, nem sabemos se esse homem idealizado existe. Será? E eu, estava mesmo preocupado com o Mr. Self? Será que ainda não o esqueci? Nem penso mais nele e naquele momento ele não era apenas um fantasma e sim o monstro gigante. Pelas ruas de Perdizes eu caminhava indo pra casa e entrei na padaria. “Um expresso, por favor,”, pedi ao balconista e foi quando uma mensagem entrou pelo whatsapp “porque você não me atende? Sempre some depois que passamos uma noite juntos”.  Fiquei minutos olhando para aquela mensagem, sem saber o que fazer até chegar o café. Estava quente e forte, como gosto e depois de três goladas respondi “sumo porque tenho medo, sumo porque estou assustado, sumo porque não sei se devo”. Não demorou e veio uma nova mensagem “permita-se para descobrir, durma bem”. E com essa mensagem fiquei mais inquieto ainda, paguei a conta e fui para casa – no caminho percebi que mesmo estando frio e se tratando de outono, a noite estava estrelada.

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