O bilhete (DOIS OU TRÊS ENCONTROS – parte 2)

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(…) “Também quero te ver… Quando e a que horas?”. Foi o que respondi para ele no Whatsapp. Encontramos-nos no Frei Café e Coisinhas, que fica na Rua Frei Caneca. Bebemos alguns drinks. Ele estava lindo numa camisa Armani. Aqueles beijos não tem explicação, o sabor da caipirinha de morango e saquê. Amasso na porta do bar, o bom de parecer um adolescente depois de adulto é que se aproveita mais a sensação. É divertido. É de sorriso tolo. Alegria boba.

Fecho os olhos e sinto o macio dos lençóis… Seu cheiro pelo apartamento azulado e iluminado pelas luzes da rua.  Ainda de olhos cerrados lembro-me dos sussurros, ouço as palavras ditas ao pé do ouvido. Sinto o peso do seu corpo e sua temperatura. O toque da pele e o suor a me embriagar. Nossos gemidos se confundiam  e se encaixavam. O prazer era recíproco; éramos cúmplices.  – Que essa noite não termine nunca!  Era só o que eu pensava. O jazz aumentava nossa libido. Pela manhã despertei com a luz do dia, luz cinza de um dia nublado de outono. Olhei em volta e ele não estava. A cama estava vazia; ao lado ele se fez presente num bilhete que dizia “não quis te acordar… trabalho sabe como é; tive que ir, fique a vontade, o café da manhã está posto para você sobre o balcão… Meus beijos em você”. Eis o perigo, eu terminei de ler sorrindo. Levantei e a granóla, o iogurte e suco de laranja em caixa estavam sobre a mesa. Também o pão integral e os “frios”. Tudo no apartamento o lembrava. Tudo tinha a cara dele… Personalidade forte. Cada detalhe. Caminhei um pouco por ali e depois tomei um banho… Cai na gargalhada quando notei que só tinha sabonete, xampu e condicionador. Faltou hidratante, secador de cabelo e produtos para pele, “ele não tem como receber um ser minimamente vaidoso” pensei eu. Depois de pronto e percebendo que meu pensamento não saia dele, que eu estava extasiado com o que vinha acontecendo e bateu certo desespero. Medo mesmo. Apanhei minhas coisas e sai correndo… Quase voando.

Sentado no banco do metro – pensei mil coisas, tentava travar um sentimento que queria brotar… Meus medos, minhas angustias… Os anseios e traumas pareciam ter saído todos de uma única vez de dentro do baú, do baú do coração; certas memórias que só o coração sabe contar. Uma vez li uma frase que nunca mais esqueci do Machado de Assis, “o coração é a região do inesperado”. E é mesmo! As duvidas despertaram as inseguranças mais profundas, inseguranças que a gente esconde para não assustar. Peguei o celular dentro do bolso e liguei “Sofia, janta comigo hoje, preciso conversar… As 20h00? Pamplona? Ok. A gente se vê lá. Beijo”. O dia seguiu e meu pensamento não desistiu de ficar nele, e naquela noite de tirar suspiros profundos.

(Continua…)

 

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