O barulho e a vida

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Do meu lado esquerdo a janela fechada e o barulho da cidade ao longe. É cedo, um carro aqui e outro ali… De olhos fechados o ruído da velocidade faz lembrar o das ondas do mar. Do meu lado direito ouço a delicadeza do cair da pétala do arranjo de flores sob o móvel, presente de uma amiga. Flores amarelas e lindas… São lindas por serem flores e por serem amarelas. O amarelo é minha cor favorita, e percebo que ainda não amo as flores em sua essência, pois, aceito-as como presente; compro-as arrancadas de seu habitat para enfeitar a casa e meus olhos. De repente mais uma pétala, o arranjo se aproxima do fim de sua vida. A casa silenciosa, pouca luz… Nada de barulho dentro. Sem despertador, sem relógio… É dia de ficar mais tempo na cama. De descanso maior. Então me coloco a preparar o café, a água com chá-mate fervendo é outro barulho que me chama atenção, não é igual à água sozinha. A colher que mexe os ovos. O barulho da escova elétrica no oco da boca e do pacote de biscoito que se abre, e quando eu passo o requeijão e aquele barulho de raspagem vem… Bom, tão bom! O prato sobre a mesa. O garfo que bate no prato, o sopro para esfriar o chá. É manhã, é “desjejum”, é dia que começa. E os barulhos serão muitos, e passarão despercebidos por tanta gente ligada no automático e em suas ambições (dinheiro, dinheiro, dinheiro), tenho um pouco de medo de quem é ligado nos 220. Pelo menos um momento do dia eu paro para ouvir o nada, dou a oportunidade das coisas pequeninas falarem comigo, me ajuda a relaxar e entender que eu vou, as coisas ficam. Eu passo, o dinheiro fica. Ansiedade mata. São sons tão remotos, peculiares e exclusivos. É real, é natural, é vivo. Nesta manhã me perguntei como pode a sirene ao longe não interromper o barulho da pétala que cai? O ruído dos meus pensamentos, do meu bocejo de preguiça? Simples, não preciso ser super-herói, basta querer escutar o som ao redor e então se concentrar e assim, o mundo torna-se rico.

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