O que aprendemos com as senhorinhas

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Apanhei o queijo tipo mussarela sem lactose, o requeijão, também sem lactose – mesmo sabendo que quase todo o meu salário seria gasto com isso (produtos sem lactose são absurdamente caros), fui dar uma curiada na área de frutas… Meu propósito no supermercado era só comprar salgadinhos para a sessão de cinema e água. Mas lá estavam elas, as frutas. Lindas, será que estavam sem sabor como costumeiramente?

Não tenho sorte em escolhê-las ou nossa qualidade de frutas não está lá essas coisas. O agrotóxico tomou conta do negócio e sabor que é bom – neca de pitibiriba. Jabuticaba ora está verde demais, ora molenga demais. Sofro com os morangos, minha fruta predileta, o sabor nunca é bom. Outro dia arrisquei em morangos orgânicos, grandes, vermelhos, caros e de beleza cinematográfica. Quem disse que adiantou?

Não faz tempo fui almoçar na casa da minha irmã e combinei de levar a sobremesa, que esqueci em cima da mesa da minha cozinha com pressa ou seria sono? Então resolvi passar e comprar uma melancia. Primeira vez que comprei uma melancia fechada – em apuros pedi ajuda ao rapaz que trabalhava no local. Ninguém melhor do que ele para me dizer como escolher uma melancia e deu certo, a danada estava docinha, docinha.

Voltando ao supermercado, ao entrar no setor de frutas para minha bisbilhotada sem interesse, avisto uma banca gigante de pêssegos. Pêssego é uma fruta formidável, apenas a própria fruta, os derivados todos tem o gosto de sabonete. Você já comeu sabonete? Não? Quem nunca sentiu o gostinho do sabonete durante o banho não toma banho direito. Tenho a impressão que todos os sabonetes são de pêssego. Essa é uma fruta difícil de acertar, eu quase nunca consigo… na maioria das vezes, sem sabor, estragam rápido, estão demasiadamente duros. Mas aquela banca tinha algo de especial, eles estavam vistosos, carnudos e chamativos e tinham um atrativo a mais: a banca estava rodeada por boas senhorinhas escolhendo-os. Pensei: se têm tantas velhinhas assim escolhendo é porque deve estar bom.

Aproximei-me e logo ouvi um “como tá bonito né menino”, “pegue os rosadinhos e não muito molengas, duram mais”. Que felicidade a minha! Poder escolher pêssegos com esse bando de senhorinhas que poderiam ser minhas avós. Ah, que saudade eu tenho da minha… Escolhi alguns e tive trabalho para escondê-los dentro da bolsa (depois de pagos, claro), parti para a sessão de cinema. Em casa, lavei as bolinhas de camada fina e delicada que mais parecem pele de bochecha de bebê recém-nascido e deixei secar.

Depois de um tempo, encostado na pia da cozinha, calmamente degustei um ou diria deliciei um? A fruta até pingava de tão boa. O que posso dizer é que aquele pêssego estava saborosíssimo. Doce, macio… Suculento… hummm!

Os pêssegos na vasilha sobre a pia me fizeram entender que existem coisas que só aprendemos com as senhorinhas. E me indaguei: com tanta modernidade, com a mulher assumindo o papel do homem e o homem não assumindo mais nada, nem sua virilidade, quando chegar nosso tempo de sermos velhos: o que saberemos ensinar?

Estamos o tempo todo de olho no complexo e nos afundando em conflitos inúteis e guerras internas cheia de muito “eu”, “eu”; lutas diárias por igualdade, por trabalho, por dinheiro e deixamos de lado a simplicidade escolher uma fruta. De cozinhar arroz. De receber amigos para almoçar em casa e oferecer carinho, atenção e uma comidinha boa. Tenho ficado estarrecido ao ver as pessoas saindo de casa, aos domingos, para comer comida caseira feita em restaurante. As senhorinhas de agora sabem escolher o próprio alimento e os preparam com uma excelência inquestionável; e nós – a geração da pizza, o que saberemos fazer? Acho que sairemos de casa para comer pizza de pizzaria. Quero dizer: nem todo mundo… porque eu sei cozinhar, muito bem por sinal e tenho dito.  

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