O 3 e o 4 estão juntos agora.

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Todos os anos escrevo sobre meu aniversário, geralmente percepções do último ano, o como estou me sentindo na ocasião e algumas projeções para os dias que virão.

Este ano o facebook resolveu recordar muitas crônicas publicadas e fotos de algumas boas comemorações. Logo esse ano que decidi não escrever nada consistente… Pois esse ano que não fiz nenhuma comemoração especial, apenas saí para tomar um drink de ultima hora com uma amiga e acabei encontrando um amigo. “Não escreverei nada depois de ter passado a idade de Cristo? Justo agora quando o 3 encontra o 4 e vão juntos num relacionamento de 1 ano?”, pensei.

Resolvi pegar um poema do Drummond que gosto muito e me fez refletir novamente nessa fase transmutativa que estou vivendo, fase qual chamo de “vida adulta”. O poema “consolo na praia” é fascinante e melancólico, exatamente como me senti das duas e pouco da manhã do dia 30 as duas e pouco da manhã do dia 31: fascinante e melancólico. Quando abri o livro do Carlos, ele me disse: — Vamos, não chores. A infância está perdida, a mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou, o segundo amor passou, o terceiro amor passou.

Interromper querendo saber: — É verdade, mas e agora, o que me espera?

Respondeu ele: — Mas o coração continua.

E continuou com suave sussurro sem me deixar interromper: — Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Tive que intervir e dizer: — Carlos, não, não tenho um cão, e viajei sim, creia… de fato esse ano perdi uma grande amiga. Ele olhou para minha planta e depois para mim. — É, tenho uma planta, pode ser. E ele continuou sábio como quem ensina o discípulo: — Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

Respondi: — o meu, bom, o meu nunca se acaba. Vivo em excessos… sem bom humor, jamais. Me parece que entendi que não posso salvar o mundo, só a mim mesmo e que se eu me salvar posso mexer um pouco no outro, a fim que ele desperte e tente salvar-se. O mundo todo não é responsabilidade minha, apenas o que eu faço com ele é… Me parece! Ele sorriu e depois em estado meditativo comentou: — A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…

E eu lhe disse: — aqui entre os vivos, meu caro poeta, estamos todos nús, na areia, no vento e se tratando dele poderíamos chamar a Clarice, a Lispector, segundo ela, ela adora voar. E eu também. Fiquei um tempo me imaginando dr mãos dadas com Clarice a voar do alto de um penhasco. Foi quando ele docemente disse com olhar fraterno: — Dorme, meu filho.

Adormeci e acordei no dia seguinte para viver meus 34 anos.
 

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