Não era…

by

O perfume era parecido e talvez, fosse o mesmo, mas o cheiro não era. Percebido isso – mais recordações… O toque sedoso do cabelo não era o teu, a suavidade da pele, não era… Essa noite te procurei em outra cama. Depois de um desentendimento legítimo, não foi um desses do dia a dia, foi a briga do nosso relacionamento todo. Atiramos tomates um no outro, escancarando mentiras sinceras, ressentimentos contidos e  constatamos o fim do que nem sei se existiu. 

Será que todo o nosso amor foi rebento da minha imaginação? 

O laço do abraço não era o seu, não se encaixava igual. O calor de seus beijos estralados em minhas costas, não aconteceu. Havia silêncio naquele quarto, faltava o seu gemido… Faltava o seu “me come, me ama”. A gente era pura contradição. Amor e putaria. Quando abria os olhos e olhava para baixo, não era você. Era alguém. Tudo paulistano demais. A gente era meio italiano com baiano, tinha ginga. Tinha assunto… A sensação foi de fraqueza quando fechei os olhos e te imaginei. Não tive sucesso, o sabor não era igual. Aquele beijo era descontrolado, frenético. Os seus, leves, tranqüilos – curtos e cheios de entrega. Você me abraçava “menino cheiroso”, dessa vez não fui notado… O cheiro que te entorpecia não entorpeceu… Em semanas foi a primeira vez que me perguntei: onde será que você está? O que será que está fazendo? Fiquei imaginando quem poderia estar na sua cama… E agora que estou em casa, percebo que fiz algo que sempre condenei – procurar alguém em outro corpo, você em outra pessoa, – me dei conta, eu deveria ter lutado e insistido, respeitado seu tempo. Algo de mim havia em você, não criei ilusões… traumas da vida… detesto gente traumatizada.

Será que me tornei mais um? Algo de real no que sentimos.

Dancei jazz enquanto você ia de valsa, e olha que adoro valsa. Devia ter feito mais… Não fiz. Não consegui e também, porque, não quis. Não me permiti tanto. E agora o preço é alto: é a falta, a ausência. Sei que cairei nessa armadilha novamente, a bebida te empurra pra isso, procurar outras vezes, em outras camas, em outros corpos, pessoas outras. Sabendo que de nada adiantará… não será você. Não terá seu eu. E mais, não terá seu sorriso singelo… A temperatura do seu corpo perfeitamente encaixado no meu. Não era você… Era alguém e muito provavelmente nunca mais nos veremos e nem lembraremos de um dia termos estado juntos.Você não, você marcou, vai ficar feito tatuagem. Antes eu te abraçava no inverno e agora são os lençóis.

Comentários

comentários