Menina negra

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Sua raça: a negra.
Sua cor: a preta.
Seus cabelos: crespos… mais, encrespados. Castanho tão escuro tanto quanto a noite que adentra formosa, calada, misteriosa. Assim o cabelo deveria ser,  e era naturalmente, porém, a vontade de carregar em si uma imagem mesmo que forjada e pertencente à outra raça, a outra cor; para se sentir adequada – ultrapassou os conceitos da satisfação própria. Trato da moça jovem que estava sentada quieta com traços mais do que da própria raça: fortes. Ela transmitia na expressão facial a força de uma raça sofrida por ter nascido em outra pele que não a branca… Uma raça injustiçada e marcada pelo passado maligno vivido por seus ancestrais, que foram mais do que os julgaram, foram mestres que deixaram de herança uma cultura rica, e a miscigenação de um povo tropical cheio de alegria… alegria das boas rodas de samba, do pagode genuíno, do blues. Mestres de si mesmos, mestres nossos e que engrandeceram nosso sangue. As pretas eram “usadas” por seus senhores, as brancas cortejadas… A força entre elas não se compara… as negras estavam no tanque, na beira do rio lavando as rendas das sinhás, cuidando e amando os filhos que não colocaram no mundo. E as brancas chiliquentas pela casa.

 A moça sobre quem escrevo estava sentada e robusta. Sorriso fechado, ombros largos, quadril avantajado e cintura fina. E para minha decepção: tinha uma identidade que não era a dela, foi alterada por ela mesma – cabelos dourados como o ouro, aloirados e alisados. Observando aquela linda negra de cor preta me perguntei em silêncio: 

– Porque moça, você quis modificar sua etnia?

– Para quê quer ter uma imagem que jamais terá, que não é a sua?

Se tivesse não seria você, seria outra, pertenceria a outra e não a sua raça.

–  Vergonha da raça ou da cor?

E alí fiquei, preso a luta e reivindicações dos negros para com a sociedade, numa solicitude quase que militante por direitos, por leis, por tudo que cobre o branco e acorrenta os negros nos guetos, nos subempregos, em escolas sem qualidade, na falta de representatividade no cinema, na arte, na teledramaturgia… meninas negras muito raramente se encontram em livros didáticos, em bonecas e comerciais de tv…

Pintar o cabelo de loiro será o caminho certo? Eis a questão! É hora de parar de sentir vergonha, é hora de sentir e expressar o orgulho de suas caracteristicas unicas, como a de todo e qualquer ser humano. Um dia desses na Avenida Paulista vi um negro com uma camiseta preta e letras garrafais em branco escrito: 100% negro.

Como assim negro escrito em branco por cima da cor preta?

Não teria que ser a cor preta por cima da cor branca? 

E se um branco usar uma camiseta com a escrita: 100% branco, o que aconteceria?

 Penso então, quem sabe se a sutileza preconceituosa e não declarada, não assumida, deixasse de existir partindo para um olhar humanizado, um olhar de amor ao próximo: para ser igual basta ser diferente. Respeitar a diversidade já, agora. Acho que o negro tem que assumir sua raça, amar sua cor e viver como qualquer um, nesse mundo ser diferente é melhor que bom, é sensacional. Mesmo com tanto obstáculo e discriminação pelo caminho. Parem de usar camisetas: 100% negro e usem a camiseta que quiserem. Para as moças negras tenho um pedido: não pintem de loiro seus cabelos, a beleza negra é naturalmente linda e intrigante.

Quase conversei sobre isso com a moça, mas fui precavido e calei. Vai que começo um dialogo e faço essas perguntas e ela simplesmente me responde: pintei meu cabelo por um simples capricho, gostei da cor e não me preocupei com a essência; foi vontade pura e simplesmente. Eu ficaria envergonhado, isso é direito. Seu direito. E sendo assim os negros tem mesmo que reivindicar outdoors pela cidade e comerciais com atores e modelos negros nas passarelas. Exigirem seu direito ao acesso. Uma raça que tem a cantora Nina Simone como represente oficial da raça no mundo musical, não pode ter do que se envergonhar.

A IMAGEM PODE TER DIREITOS RESERVADOS
TEXTO ESCRITO ORIGINALMENTE EM 2010 E ADAPTADO EM 2017

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