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No segundo semestre de 2015 passei por uma internação de dois meses, uma luta acirrada contra uma doença que resultou num inicio de ampliação de consciência, muito embora, eu já estivesse em processo. No período em que estive acamado recebi a visita de uma grande turma de voluntários: doutores da alegria, profissionais de heiki, os que batizei “batedores de papo” – passavam só para conversar. Evangélicos, padres, artesãos e músicos… Foi assim que eu descobri que, para tocar piano o aluno deve estudar oito anos.

Essas pessoas preenchiam dias vazios, davam cor a tardes acinzentadas e mais; plantavam uma semente de esperança em todos nós. Percebi o quanto era nobre você dedicar um pouco do seu precioso tempo a quem precisa… Naquela ocasião me prometi que seria voluntário de alguma maneira quando saísse daquela cama… Claro que quando estivesse preparado emocionalmente e fisicamente para a empreitada.

Um ano depois, já bem de saúde, sabendo lidar emocionalmente com a doença, surgiu a chance de participar de uma ONG que tem um trabalho lindo. A ONG, distribui semanalmente marmitas para moradores de rua durante a noite, promove bazares, reuniões e atende orfanatos e asilos. Percebi que ajudar só financeiramente não seria o suficiente para mim… então, lá fui eu, ajudar a entregar as quentinhas. Me despi de meus preconceitos, dos meus julgamentos, de todas as minhas frescuras e pensei: vamos matar a fome de quem tem fome. Seres humanos vivendo de forma precária pelas ruas e que passam desapercebidos como se fossem muros que ninguém nota, como se fossem parte do asfalto, eles dormiam pelas calçadas daquela noite chuvosa. Pessoas de todos os tipos e cheiros tomavam as ruas como se só durante aquele período eles tivessem o direito de comungar. As ruas de SP estavam cheias deles, cada pedacinho tinha uma alma faminta, solitária, fazendo da rua sua casa. Vivendo calada a sua dor, a sua história, seus motivos por chegarem aquela condição. Tive vontade de conversar com tanta gente. E aqueles sorrisos de felicidade de quem não tinha um dente para mostrar – me tocavam.

Fiquei surpreso, não senti pena. Senti algo grandioso, solidariedade. Muita compaixão… Me senti fazendo algo, por alguém, sem interesses particulares, apenas um, o de que aquele ser humano matasse sua fome… Naquela noite conheci o Magrão, um morador de rua alcoólico que já tivera algumas chances de sair das ruas e não conseguiu, será que faltou força de vontade? Não. As pessoas às vezes simplesmente não conseguem… Que cara divertido! Animado e feliz. Quem é que pode julgar o tipo de vida dele? A gente sabe que para ele ter chegado ali, muita coisa pode ter ocorrido… Ou não, de repente tudo pode ter começado apenas numa latinha de cerveja hoje, outra amanhã, e mais uma depois e depois a pinga e então, um caminho sem volta. Sorte a dele ter quem o alimente, alguns podem pensar; eu não. Sorte a minha tê-lo conhecido e aprendido essa lição com ele.

Passei a ser mais grato por tudo o que tenho. Senti gratidão em passar por aquelas pessoas e poder toca-las. Por cada sorriso que recebi, cada obrigado. Percebi então, que todo estudo, toda cultura e meu envolvimento com a arte de nada vale a pena se eu perder meu principal atributo: o senso pratico de humanidade. Toquei quase todos para quem ajudei a entregar a marmitinha. Adaptei o meu “bom jantar” para “boa janta”… Não sei se escreverei mais sobre esse assunto daqui para frente, sei que continuarei contribuindo. Mas esse texto eu quis dividir, quis…

Quem sabe alguém seja tocado, e faça algo pelo outro além de ficar defendendo as minorias nas linhas do Facebook. No inverno passado ajudei uma senhora que mora em baixo do viaduto perto de casa, ela foi meio grossa comigo, mas aceitou a doação de um cobertor novo, uma camiseta e biscoitos… Senti raiva, não tinha parado para pensar, o quão maltratada essa senhora já poderia ter sido para ser tão defendida e agir como agiu… Ontem passei por ela e sorri, e assim prontamente ela retribuiu. Acho que fizemos as pazes. E isso me inundou de felicidade… Devolvamos a unica coisa que a gente realmente tira dos moradores de rua: a dignidade. A dignidade de existir.

Seja um voluntário:

https://www.facebook.com/victoriaspelavida/?fref=ts

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