Fala-se em autocuidado

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Hoje em frente ao espelho me olhei com mais gentileza. Algo difícil quando se trata da sociedade da culpa, que nos culpa por tudo. Tive que me afastar do trabalho por causa de problemas de saúde. Coisas já estavam acontecendo comigo há algum tempo e piorou quando descobri uma diabetes tipo 1, que por pouco não me deixou cego.

Fora essa tenho mais algumas patologias que não cabem falar, mas que o estresse é seu inimigo numero um. Como não se estressar na sociedade brasileira em geral e melhor; como não se estressar numa cidade como São Paulo. Entendo isso como pedir muito, pedir demais.

Então o que a gente faz? Aprende a conviver com o estresse (mesmo não devendo), ele entra no discurso e vamos em frente, todo mundo se estressando. A diferença é que se ele faz mal para todos, imagine para aqueles com patologias em que ele é um excelente gatilho. Pois é, o estresse acumulado mexeu com 3 das minhas patologias e afetando principalmente a pior delas, a que causa estragos a curto prazo. Não podemos falar de estresse sem comentar nada sobre a tão famosa “inteligência emocional”.

O que tenho entendido como inteligência emocional é o saber a hora certa de calar-se. Se quiser ser bem-sucedido na empresa na qual trabalha, você não deve ir contra seu chefe mesmo que ele não esteja acertando. Caso fale, mesmo que da maneira certa; usando as regrinhas de ouro da psicologia comportamental: passivo, agressivo ou assertivo, prepare-se que qualquer uma das três opções você vai ter algum tipo de desgaste, até na assertiva que é a ideal.

Hoje a pessoas entendem aquilo que querem entender (ou seja, o que convém) e não aquilo que você quis dizer, independente a forma como é dito. Sem generalizar. Se você sabe calar-se e concordar, será bem visto pelas empresas e interpretado como sendo uma pessoa inteligente emocionalmente. O que não adoece. O que cumpre seus objetivos com frequência. O chefe passa por perrengues ainda maiores, pode acreditar e ainda tem que ouvir você falar mal dele. Certo, a gente consegue fazer isso com inteligência, mas aonde colocamos nossas emoções? O que fazemos com elas? Passamos por cima e esquecemos que nosso psicológico está totalmente ligado as nossas interações.

O estresse vai vir e o corpo vai sentir, vai padecer, mesmo os mais resistentes. Muitos praticam esporte para tentar colocar para fora todas essas emoções, talvez, por isso tanta gente viciada em crossfit, sexo, compras, celulares, tablets. Outros são viciados em comer doce ou simplesmente comer; quando não preenchem a mente pensando no futuro gerando ansiedade ou ficam presos ao passado, o que a nossos olhos foi bom e fica deprimido por não estar vivendo aquilo no agora.

Não é à toa essa sociedade andar tão ansiosa e deprimida. A gente se sente na obrigação de pensar, de se preocupar e esquece que é o nada que limpa, o descanso verdadeiro só acontece com o celular desligado. A gente fica com uma sensação de impotência imensa. Mas existem as férias você vai dizer numa tentativa de eu ouvir.

Será que 30 dias de descanso são o suficiente para suprir 11 meses de trabalho? Fora o trabalho somos seres humanos que temos religiões, famílias, relacionamentos, planos para o futuro, patologias e tudo se mistura numa única fogueira: nossas emoções. E tem gente que enche o peito prepotente para dizer: – eu consigo, eu sou um inteligente emocional. Eu não acredito, uma vez que cientificamente não temos controle de nossas emoções, podemos camuflá-la, mas não deixar de senti-las.

Por isso, fala-se em autocuidado, na intensão de amenizar o estrago que é conviver em sociedade. Estou tentando fazer pequenas coisas que me dão prazer para me recuperar do susto. A culpa de estar sem produzir ainda pega forte, então, estou produzindo para mim mesmo; a diferença é que não ganho, ou ganharei a longo prazo. Isso é o capitalismo em que tanto os ricos e milionários acreditam ter dado certo e que funciona. Deu, funciona, mas não sem destruir vidas em prol do dinheiro.

Hoje comecei meu dia melhor… o melhor desde que estou em casa. Ouvi Marisa Monte enquanto escrevia e tomei chá depois dos medicamentos e insulina. Hoje tentei não me cobrar de nada, resolvi atender a orientação da minha psicóloga: não se cobre nem para ler. Apenas descansar.

Será que a gente se permite esse luxo? Eu nunca pude. Quem sabe agora.

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