Existe amor em SP?

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Sou completamente apaixonado pela cidade de São Paulo, sempre fui. Suas noites complexas e de gente doida cheia dos mais diferentes devaneios. Morando aqui há quase uma década percebo coisas que me fazem questionar e até concordar com o dizer: não existe amor em SP.

Talvez, não mesmo. Aqui você tem muitos amigos de bares (só de bares), muitos. E faz amizades de infância nas noitadas, até leva gente para sua casa e muitas afinidades surgem pela madrugada de bate papo. No dia seguinte, você adiciona as pessoas numa rede social e sendo do interior manda um direct: oi, foi bom te conhecer vamos marcar outras vezes. A pessoa lê e nem se da ao trabalho de responder, foda-se você e sua boa vontade, sua cordialidade. Isso não tem valor em SP.

Envia uma mensagem para um amigo e pergunta como ele tá, a resposta vem no dia seguinte: tô bem, amor. Quer dizer, foda-se sua boa intenção (o inferno está cheio) e olha que você já nem esperava uma resposta seguida por um “e você?”. Você marca com um amigo que te ama e ele que “te ama” some, você marca novamente e esse amigo prefere outro rolé e nem te convida e se você tira satisfação é chamado de dramático, foda-se que você esteja com saudade, a vida dele também está assim cheia de drama. Quer dizer, a consideração por um amigo saiu de moda, puf, sumiu.

Se você convida alguém para jantar na sua casa num sábado ou almoçar no domingo ninguém topa, ir a casa de alguém é absurdo e não existe em SP, é invasão de privacidade, mesmo que consentida, mas diz: vamos jantar ou almoçar no bar tal? A resposta é imediata: eu topo, quando?

Sem falar na cultura do eu, apesar que essa acredito que seja mundial. Experimenta, repara nisso e verás que tenho razão: você conta um problema seu (e espera a reação) e a pessoa mal te deixa terminar e começa a contar problemas dela e o seu é esquecido. Foda-se os seus problemas, os meus são mais importantes.

Não sei, concordo com Elis, a Regina… “não se faz mais gente como antigamente”. Muitos vão ler essas linhas e pensar “ih, ta carente”, “ih, ta fazendo draminha”, “ih, ta ressentido”, tô não – ainda tenho uma planta em casa e ela anda mais viva do que a vida que a galera anda levando. Só quis registar como o paulistano está cada dia mais enfadonho e não reparou. Mas isso é aceitável, pertence a modernidade liquida dos nossos tempos, eu é quem parou no tempo. Naquele tempo em que as pessoas eram seres com quem a gente compartilhava, com quem a gente se importava; hoje em SP a gente não passa de um monte de coisa horrorosa uma em cima da outra pronta para ser usada aqui e alí.

(a foto tirei no viaduto Martinho Prado, há minutos de casa)

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