É NATAL!

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Oi, vó…

Quanto tempo, embora eu fale com a sra. todos os dias em pensamento (grande pausa para as lagrimas, nossa!!!), nunca te escrevi. Que ironia, escrevo sobre tanta coisa, até já publiquei um livro… Vó, eu cresci, sou um adulto; veja só: chegou para mim e por vezes me pergunto se a sra. sentiria orgulho, afinal, a sua opinião era a mais importante para mim.

Como a sra. está vó?

Nosso último contato foi num sonho, um ano após sua partida. Lembro que a sra. estava num campo verdinho, tinha um balcão, parecia de bar, banquinhos altos e vestia rosa, unhas pintadas de branco cintilante e sorria, gargalhava como as que dava falando das pessoas nas noites em que molhávamos a bolacha de agua e sal no leitinho quente com chocolate na cozinha da sua casa.

Vó, é natal… nossa data preferida, ou talvez, a festa do ano que a sra. me ensinou a gostar tanto. Claro que no nosso tempo eu ainda acreditava ser o aniversário de Jesus, mas os estudos e o conhecimento me ensinaram que Jesus é aries e não de capricórnio. Mas a magia existe de verdade, o solstício de inverno do hemisfério norte que o diga… Ainda prefiro comemorar o aniversário de Cristo, líder mais lindo e humano não houve até hoje.
Vó, a temperatura anda insuportável e nosso país mais tropical do que nunca, penso que se estivesse aqui, sofreria demais, mas com certeza, já seria adepta ao ar condicionado como eu. Deixei tanta gente para traz para me tornar feliz.

De onde veio essa força?

Talvez da mulher que me colocava para lavar meia numa bacia de alumínio. Que me dizia que o trabalho dignifica, porque é recompensatório e só assim se chega a qualquer lugar, até quem faz caridade trabalha… Por aqui, anda tudo igual, só se fala em crise, crise… desde de sempre isso aqui é crise, mas os restaurantes estão cheios e as pessoas viajando mais do que nunca. Ainda não realizei um desejo nosso de nossas conversas intimas: não conheci a Itália. É meu próximo passo. Ah, voltei a estudar, deixei a educação e venho fazendo a vida no varejo que me despertou um grande amor pelas pessoas, pela psique humana… Estou fazendo psicologia aos 33, idade interessante não?

Trabalho num lugar que me dá prazer em sair de casa… O especial do Roberto foi a mesma coisa de sempre e em 2003, nosso ultimo final de ano juntos, a sra. já reclamava, mas não tem como não assistir e se emocionar.
Meu amor, tenho tanto para contar… tanto… Tanta saudade para expressar… mas te escrevi essa carta, essa crônica cheia de mim, para dizer que este natal foi foda sem ter a sra. aqui, não sei o motivo!!! Esta é a terceira ceia que vou oferecer em casa e assim como passávamos o mês de dezembro, passei este… cuidei de tudo, armários, guarda roupas, livros antigos, arrumações, doações, trabalho, pensei no cardápio, em quem convidar… supermercados, presentes para todos que amo. Do nosso tempo, os que eu amei sobraram tão poucos e eu peço as energias do universo que cuidem de cada um e os realize, assim como eu me realizo todos os dias. Hoje madruguei, separar os guardanapos, tomar um cafezinho aromatizado delicioso que ganhei de uma amiga. Separar as taças, cristal, sim, aprendi a gostar de coisas boas, a sra. fez um bom trabalho. Ontem a moça que me ajuda, cuidou da casa. E o arranjo de mesa? Lindinho, a arvore sempre… Lembro que passávamos horas enfeitando a casa para a chegada do bom velhinho. E me lembro também de um ano em que a sra. topou se vestir de papai Noel.
Enfim, esse ano, meu texto de natal foi para dividir com mais alguém que a sra. existiu e me salvou da miséria, me mostrou um mundo de possibilidades, me fez acreditar em mim, mesmo assim, eu duvidei muito tempo e precisei de uma boa terapeuta para colocar ordem na bagunça que fizeram na minha cabecinha depois da sua partida. Sou rico vó, rico, por ter chegado até aqui. Por viver um dia de cada vez…

O espirito de natal está morrendo, vó… mas no que depender deste seu neto aqui, enquanto eu viver, em mim, ele estará sempre presente e eu passarei para frente.
A casa está pronta, a ceia começo a cozinhar hoje de noite… E todos são loucos pela minha comida e querem saber os meus segredinhos, os que aprendi com a sra., bobinhos, nem imaginam que é um só: amor. A sra. me dizia: só pega na panela para cozinhar se for fazer com amor… Sei que a sra. já virou estrela, mas continua brilhando aqui dentro de mim. Te amo demais vó, demais… Por isso, eu agradeço, agradeço, agradeço.

Para Aparecida Estravatti com todo o amor do mundo

Feliz Natal.

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