Doroth

by

Diziam que Doroth era ele. Mas Doroth, não se sentia ele. Era ela. Sentia-se ela. Desde que abriu os olhos. O pai colocava o então menino para jogar futebol e vestia-o de wazul. Ele enquanto ela, brincava de boneca escondida e, quando maior, pintava-se com as maquiagens da mãe. A hora de responder a chamada do colégio vivia um verdadeiro pesadelo, Doroth respondia por Inácio. Era como se tivesse faltado ou tivesse a obrigação de responder por alguém que não existia; ou existia, no querer masculino de seu pai e nas inseguranças de sua mãe. Ele que se sentia ela não conseguia afeiçoar-se ao colégio. Chamavam-no de “bichinha”, “viadinho”, “fruta-cor”. Os meninos tinham horror a ele e as meninas a adoravam.

E assim cresceu… Nesse conflito interno, intenso e absoluto. Cresceu ela…  Afinou a voz. Fazia exercícios manuais durante o banho para que seus peitos crescessem e conseguia pouco a pouco resultados que só ficaram satisfatórios com ajuda de hormônios. Enfim seus seios tornam-se femininos, a cintura afinou, não conseguiu livrar-se das mãos grandes e desajeitadas. O cabelo era tão bem cuidado quanto o de artistas hollywoodianas e os traços mais femininos do que os de muitas fêmeas genuínas. Tornou-se o que sentia ser, ela… Impressionava os ditos machos, por onde passava, e foi paquerada muitas vezes por eles. Apanhou em ocasiões específicas por ser confundida com mulher, embora, muitos ao descobrirem que não se tratava de um corpo completamente feminino eram poucos os que diziam não. Não podia ser confusão! Ele se via no espelho, era ela. Era mulher. Sentia-se assim. E não entendia o porque de não nascer assim. Nunca se aproximou da intenção do prazer masculino da posse, do uso. Nunca sentiu a necessidade de dominar um corpo feminino. Mas tinha desejos ardentes pela submissão, em ser possuída. O gênero estava errado. Inácio cresceu Doroth. Nome escolhido no dia em que assistiu o clássico “O Mágico de Oz”. Ele era sensível demais, instável demais, emocional demais. E uma vez por mês tinha muita vontade por doce, ficava carente. Chorava escondida. Desejava gerar uma criança e cumprimentar um marido com um beijo suave e delicado; chamá-lo de “meu bem”.

Cresceu sofrendo e sentia-se aprisionada num corpo, ainda, masculino. Tornou-se cabeleireira longe do pai, que a expulsou de casa quando ele assumiu ser ela. E da mãe que não entendia a falta de respeito do filho. Hoje, Doroth vive á espera da justiça e da ciência provarem que ali naquele corpo “de ele” está acorrentada uma mulher, doce e meiga querendo se reconhecer e ser si mesma diante do espelho e da sociedade. De ser aceita, entendida e chamada pelo seu verdadeiro nome, Doroth. Ela vive da mais linda esperança: que um dia, por ironia, um homem faça desse ele, ela.

Comentários

comentários