Defeitos não sabem mentir

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O vulcão em erupção se aquieta, adormece em seu leito. Minha inquietação interna me violenta – e me violentando; violenta quem percebe tal violência.

Ser impulsivo é o mesmo que abrir os olhos e ver: já fiz, já disse… É arrebentar quem não precisa de arrebento. É desagradar quem não precisa de desagrado.

Sou todo defeituoso. Somos defeituosos em buscas de belas construções arquitetônicas nesta linha que é fina e desenhada pelo tempo, que presenteia um a um com traços únicos.

Como controlar um ímpeto? Como ser sincero sem ferir? Como falar a verdade sem magoar? E sem essa ladainha de que tudo é como se diz, o jeito que se fala. Este jeito muda de nação para nação. Será que queremos saber a opinião alheia para tentar nos justificar?

Vivemos o tempo todo de mentiras que contamos aos outros, mentiras contadas a nós mesmos. Penso aqui; será que enganar-se é uma fuga de fato? Quero dizer: uma maneira de não lidarmos com nossas verdades? O que falar quando não se quer dizer aquilo que os outros querem ouvir? Calar? Não. Não. E quando os outros insistem? Complicado, meu amigo, isto é o que chamamos de conviver. Neste papel em que aprendo a me desenhar, a me respeitar e aceitar que qualquer evolução pertence ao seu próprio tempo. A sabedoria não está ao alcance das mãos, dos livros, das teorias. Só a velhice está. Só como passar dos anos é que entendemos sobre os mistérios da vida. Talvez nascer, crescer, morrer; não tenha mistério algum. A gente é que cria os mistérios para ter desculpas para buscar sentido ao processo que já de fato um sentido: nascer, crescer, viver e morrer. Só quando pelancudos é que a gente encontra a verdadeira sensatez, antes disso é pretensão. Qualquer tentativa principiante é mera frustração. Só vivendo. Deixando o passado como está: morto. E sem planejar o futuro. Mania que temos de querer viver de heroísmos. Por que buscamos tanto sentido para a vida? Por que queremos tanto acreditar que a vida não acaba aqui? E se não for, corremos o risco de não gostar do lado de lá. Pra que se eternizar? Dei uma boa divagada agora em torno da existência, mas volto aos defeitos – gosto dos meus. Não das confusões que eles me envolvem… Chego a acreditar que algumas imperfeições são de cunho genético – tão difícil mudar. Pouco sei sobre minhas qualidades e aonde vou chegar… O que sei é que o defeito é a mais pura forma de sinceridade. É o que somos. É o bruto da pedra. É essência que vamos lapidando ou não.

Estas imperfeições tatuadas em mim e nos outros, em todos. É a fraqueza da alma, seu escândalo escandalizado. Nosso ego – o próprio ser. Defeitos me atraem e me interessam, em mim e nos outros. Defeito não sabe mentir, é como o vulcão adormecido… Ele adormece, se aquieta, se esconde e continua lá até a próxima erupção.

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