Correio Virtual

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De: C.L.

Para: Lucas

Luquinhas,

sentada no quintal da frente, cadeira de praia. Não sinto a casa grande, sinto a casa minha.
Sem vento. Muitos barulhinhos, a chuva caiu forte hoje, as árvores estão muito vivas, seus hóspedes também. Mas  está tarde e hoje foi um dia de muito esforço.
Folhinhas caindo, frutas caindo, galhos que se soltam, folhas que despencam aos poucos, descendo a árvore, se apoiando nas vizinhas, para enfim chegar ao chão.
A avenida está perto, mas não há movimento nem barulho. De vez em quando um carro ou moto, às vezes o barulho da velocidade.
Meu pensamento é só um: agradecimento! Não tenho a menor dúvida de que sou privilegiada e que devo lembrar e agradecer a isso diariamente. Agradecimento pela tranquilidade do lar, agradecimento por meus pais terem me ensinado o que é importante, agradecimento por eles serem quem são e por eu ser quem sou. Honestidade! Simplicidade! Ser, pensar no próximo, política é dia a dia, quem tem mais tem que dar mais, a humanidade é a nossa família e família é importante para caralho.
Me lembro do que sempre bons amigos me falam. Que sou muito aberta, que as pessoas têm inveja, que as pessoas têm raiva da facilidade com que vivo a vida, que as pessoas são interesseiras, que me doo muito e recebo pouco, que não sei me dar valor.
Que peço muitas desculpas e muitos obrigadas.
Toda vez que rola esse tipo de conversa penso:
Sim, é verdade, as pessoas podem ser muito FDP. Sim, já me sacanearam pra kct. Sim, já cometi muitos erros de julgamento; de situação, de riscos, de possibilidades, de caráter, de posicionamento.
Tenho firmeza de consciência de que as escolhas foram minhas. Se eu fui prejudicada é porque me arrisquei. E porque tem gente do mal por aí. Mas sei também que a vida é um risco.
Quem está vivo corre o risco de morrer. E de se machucar. Gente sem caráter tem de monte, eu os chamo de coitados.
Muitas vezes fui alertada por bons amigos sobre más escolhas. Sempre fui pela impulsividade, pelo desejo imediato, pela pura ingenuidade às vezes, pelo sentimento de autodestruição (ancestral), mas principalmente pela aventura, pelo novo, pelo diferente. Confiar antes de duvidar. Feeling. Energia.
O que eu sei é que as minhas escolhas fizeram quem eu sou hoje.
Me sinto ainda uma neófita nesse lance de entender a vida.
Mas sei também que minhas escolhas me possibilitaram uma vivência única. Sou única.
Há dez anos, depois de uma adolescência conturbada e três anos de terapia, descobri minhas raízes. Minhas folhas vão cair, meus frutos vão apodrecer, meus galhos serão podados. Mas, enquanto minhas raízes continuarem vivas eu terei força.
Mas comecei a escrever isso por uma decepção. Mais uma. Amigo, mesmo posicionamento político, vida noturna agitada como a minha, vizinho. Aproximação rápida, identificação. “Amigos para sempre”.
E fiquei sabendo que tá me chamando de playboy na rodinha!

De: Lucas.

Para: C.L.

C.L,

Foi uma surpresa acordar ainda tão cedo e como de costume checar meus e-mails e encontrar você. Nua, despida de qualquer coisa… Uma C.L. que tão poucos conhecem e que eu percebo sempre que estamos juntos. De repente, não tenha sido a amiguinha quem escreveu isso e sim a amiga. Chega uma hora que a vida nos cobra esse posicionamento. Crônica linda, sincera. E que não pode ficar guardada, merece titulo e postagem. Não cale sua própria voz, já tem gente demais nos podando. Detesto as decepções, não lido nada bem com elas, principalmente quando se trata de amigos; chego a adoecer fisicamente dias depois de uma decepção. Contudo, algo é certo e clichê: a gente cresce. Inevitavelmente a gente cresce, aprende. Amiga, minha amiga… És tão querida por mim. E pelo meu apreço que te digo: lembre-se que a cada pessoa FDP que você encontrar, você tem um monte de gente do caralho que gosta de você pra cacete. É isso que importa. Tem gente que nasceu para ser “por menor”… Sobre o playboy, diga a essa pessoa “por menor” que playboy é coisa do passado e que a onda agora é ser APODERADA e termine com um:

 “Beijinho no ombro”.

Te amo

Lucas

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