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De: Lucas
Para: J.R.

Oi, Zé.

Engraçado, nunca te chamei assim e ando com vontade de fazer… É como voltar no tempo e te ver pelos corredores do colégio. Naquela época eu te chamava de POP. Belos dias, embora eu pouco tenha saudade… Não consigo. Cresci tanto e aprendi tanto, mas as saudades são poucas. Sabe uma saudade que eu sinto? Do mundo gay da década de 2000. Quem diria 2000 já é uma década passada; e cenário dos meus vinte anos. Sinto falta daquele escondido, daquele medinho, o frio na barriga e a coragem que era atribuída a todos os homossexuais que saiam do armário, que viviam fora dele. Lembro-me de gays com mais conteúdo, com mais força, gays mais independentes… A geração se enfraqueceu… As baladas tinham shows; shows de drag – superproduções, embora algumas casas da república ainda o façam. O ficar era algo para a noite toda, a gente conhecia um pouco do outro. Às vezes até se interessava e como o celular ainda não era parte do corpo e era bem para poucos a gente anotava o numero de telefone no guardanapo. Respirei fundo aqui. Hoje os gays beijam todos, sem nem saber o nome. A maioria esqueceu o conteúdo e… Sem palavras… Um meio tão artístico, criativo, inovador – adotou uma cultura-hetero-normativa da qual eu saio correndo.
Essa homofobia dentro do meio me enoja. Hoje em dia afeminado não pode, como assim? Passivo é mal visto até pelo ativo, como assim? E os passivos por vergonha agora adotam o relativo (machismo existe até no mundo gay). Mas, fazer o que se os conservadores estão na moda novamente num país tropical e tão, tão miscigenado como o nosso?
E cadê os gays da nossa idade? Não os encontro aqui em SP, juro. Apesar de estar recluso e não suportando mais baladas, eu tentei encontra-los e só me deparo com o pessoal que fala “tipo” e “ta ligado”, que são os mesmos que dizem “velho” e idolatram Lady Gaga e Britney. Não que gostar dessas porcarias seja ruim, só difícil pra mim que te escrevo ouvindo Maria Bethânia e Elis. Acho estranho isso, ser gay e ter que gostar de CK, divas e música eletrônica. Nunca estive tão chato. Tão me achando um ET, tão querendo me cercar das coisas que me agradam e se tem uma coisa que nada me agrada é a futilidade gay, essa busca desenfreada por sexo (fase que já superei) e esse excesso de festas e falta de teatro, cinema e engajamento.
Espero que não, mas tenho sentido movimentos estranhos contra nós e estão todos dopados, cegos. Existe algo de censura de religiosa adentrando nossa cultura a fim de nos exterminar. Quero estar redondamente enganado.
Mas, me diga: Como estás? Seu coração quentinho? Fale-me de você e como lida com esses novos tempos, que aceitemos ou não, não são os nossos. Quero te fazer um pedido e ao seu “namorido” se puder, estou exausto de baladas finas, de gente do hall society e do carão; vamos à Blue um sábado desses? Vamos ver a Tayla Bombinha, a Márcia Pantera e rir com a Silvete? Diz que sim, preciso sentir que existe gay no mundo e lembrar que já fui adolescente.
Um beijo querido mora em meu coração.
Lucas.

De: J.R.
Para: Lucas
Lucassssssss rs
Engraçado poucas pessoas me chamam de Zé, alguns por acharem que eu não goste; outros até por desconhecerem meu nome, afinal sempre fui o J. Né?! Engraçado ainda mais é o titulo de POP, hoje me vendo e olhando pra trás sempre tentei não ser. Mas tem coisas que são mais fortes, ficam na derme, percebo que pessoas como eu e você, de opiniões fortes arrebatam os outros, mas o passar do tempo nos deixa mais sábios, hoje não brigo pelos outros, não gosto de injustiças, mas não compro brigas que não sejam minhas… Talvez eu acabe deixando as pessoas sem ação, porque não as defendo mais, já entrei em guerras que não eram minhas e somente eu lutei… A gente cansa…
Sinto falta de algumas coisas, e muitas vezes, eu fico pensando em querer ter os meus 20 anos novamente. Com tudo aquilo que conquistei hoje sabe… Aos 20 eu não era tão determinado, nem tão polido como hoje… Tinha o complexo de Cinderela, espera o príncipe encantado, acredita??? Alguém que me tirasse da minha vida, que me fizesse especial…. E depois de um grande tempo e de uma grande dor descobri que eu era meu príncipe. E como queria ter esse poder que temos hoje, pode parecer fútil, porque sei que é, mas ter um emprego legal, um carro e até comprar as roupas que queria, aos 20 anos era um sonho tão distante.
Percebo uma contracultura não só no mundo gay, mas em torno do poder do álcool, já percebeu? No meu tempo e na minha cabeça, aos 20 eu tinha que ser o mais responsável possível, já hoje percebo que o quanto mais inconsequente você for, mais transado, mais cool você é…. Mas isso no geral, não só nos gays. Vejo pessoas sem identidade tentando ser hispter e nem ao menos entende a essência, hoje ser diferente é legal, e lutamos tanto para ficar iguais aos outros para não fugir do padrão, agora o padrão é não ter padrão.
Como estou? Numa fase de ganhos e perdas, trabalhando muito, me divirto pouco, canso muito, estou numa luta dentro de mim de querer estar mais bonito, com o corpo mais em forma, mas ao mesmo tempo não encaro o ônus disso…. To com um carro legal, do jeito que queria e meu apartamento está pra sair, e aprendi a amar o Fernando do jeito que ele é, e confesso que gosto mais assim. Mas queria ter mais tempo, trabalhar de manhã e dormir à tarde, ler mais, assistir mais filmes. A educação é um ramo que gasta demais nossos sonhos sabe, você tem duas opções, ir conforme o sistema ou sempre ser o chato que contesta; que briga, que acredita. E sabe uma hora você cansa de ser a segunda opção e parte pra primeira, se você é briguento como eu, isso demora mais tempo, como sei que vai demorar no meu caso. Traços planos B pra minha vida, pra me equilibrar, sei que é uma fase e isso vai passar…
Será que tenho pique pra encarar uma Blue Space? Muito tempo ser ir no mundinho… As gírias continuam as mesmas? As musicas e o jeito de dançar? E o flerte né???? Vou adorar ir sim, vou falar com o Fer, e vamos sim… Você e eu.E como não podia ser diferente, te deixo com uma musica que vem me parando por esses dias… Um beijo bom pra você meu querido amigo

J.R.

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