Coloquei Elis para ouvir baixinho

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Havia um pouco de louça na pia por lavar… Ao entrar em casa, não sei por que, logo após de acender a luz e tirar os sapatos reparei assim, como se ensaiado para os portas-retratos no móvel abaixo da TV… Sorrisos… muitos risos, amigos lindos… Só amigos. Em cada quadradinho um momento especial registrado e ali estampado, eu diria, eternizado. Se o momento é vivido, é eternizado; uma vez que somos todos eternos – os momentos também são.

Tratei logo de tirar a calça, apertada. Ando me sentindo mais gordo. Estou mais gordo, percebo justamente pelas calças que insistem em não querer servir. Preciso levar a sério voltar a correr… Fui à louça e a lavei. Casa fechada. Meu silencio pelos quatro cantos. Meu eu simplório de tudo como realmente és. Feliz por lavar a louça em silencio. Grato por mais um dia de vida sem me importar se foi melhor ou pior que ontem, e, então percebo: já é hoje novamente. O relógio não me poupou em dizer que já passamos da meia noite.

Coloquei água para ferver, um chá cai bem… Coloquei Elis Regina para ouvir baixinho, no meu mundinho. Nesse pedacinho de chão que é tão meu, que é tão eu… Sento para escrever, fito a xícara de chá e atrás dela mais retratos, outros amigos, mais momentos; outros sorrisos… Alguém fotografa lágrimas? Para que? Em frente às fotos uma arvore reluz um dourado purpurinado me lembrando de que o natal se aproxima mais uma vez. Alias, amo o natal. Não sei o que acontece, mas sinto certa magia no ar. Li a pouco que podemos viver mais um Impeachment… Seria um terror, iremos a eleições indiretas. E pior que sermos governados por um vice-presidente golpista, seremos presididos por alguém que não escolhemos. O Brasil está do avesso!

Gostaria de um copo de uísque… Não posso, vai chá. Estava aqui pensando apenas no que é estar só… Nas indagações, nos nossos muitos eus de uma vida ou da vida até aqui que insistem em nos encontrar, em nos rondar. Quer lugar mais egocêntrico do que a casa da gente? Tudo respira o que somos. Nossos momentos, nossos gostares. Nossa breguice e individualidade. As futilidades e também as sutilezas. Ao convidar alguém para vir a sua casa é o mesmo que convidar alguém para penetrar seus segredos. Será, por isso, que raramente as pessoas se convidam? Ao menos em São Paulo frequentar a casa de alguém é… Sei lá… Não existe isso aqui. Eu convido. Eu cozinho. Eu grito. Eu choro no cantinho… Eu mando a merda, falo sem filtro. Penso e solto. Viu só, quantos eus? Todos os livros que li e gostei permanecem aqui, os que eu não gosto os sebos agradecem por receber. Um amigo me disse, no último final de semana, que estou me encontrando, estou começando a estar firme no meu centro.

O que será se encontrar?

Elis agora interpreta “romaria”… Que beleza… “o meu pai foi peão, minha mãe solidão, meus irmãos perderam-se na vida em busca de aventuras”. Ontem um italiano me disse que o futuro é construído todo dia. Que o que pensamos constrói o futuro o tempo todo. Achei aquilo tão “o segredo”, e tão ridículo quanto o livro. Hoje acordei com isso na cabeça. De fato, eu não acreditava no futuro e estou revendo meus conceitos, pode ele não existir hoje, mas vai amanhã. Amanhã será o presente e isto é o que vai importar, por isso, é necessário ter pensamentos bons hoje. Não tenho medo de me mostrar. Esse texto não tem nada demais, não escrevi para atrair nada. Ninguém. Só escrevi e talvez tenha sido o mais confuso que eu já tenha escrito e sem medo da inquietude dentro do silencio… Sem me preocupar com compreensão. Hoje não… Nem poderia, ainda preciso tomar banho e depois cuidar da pele e colocar a placa de ATM que peguei durante a semana no dentista, preciso dormir com isto na boca, diz ele que estou mordendo demais os dentes durante o sono. Vem dai a dor no maxilar. Cada uma! Depois disso, vou dormir; hoje mais do que nunca consciente de que não temos certeza alguma, de nada. Nunca.

“Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai não fica nada”.

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