Celeste

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Segunda parte

A noite seguinte era de sexta-feira e a ruiva perfumava-se em frente a sua penteadeira. Usava um vestido rodado e armado na altura dos joelhos, tinha um cinto verde musgo e era de brilho acetinado, que realçada a cor pastel do tecido. Seus cabelos ruivos estavam mais lisos que o costume e presos a um penteado que lhe deixava mechas soltas. Celeste era de uma beleza incomum, chamava a atenção dos homens sem intenção. Era honesta e trivial; ou acreditava ser. Nascida em família nobre tivera se casado há dois anos com Benício, um jovem promissor que serviu o exercito e fora convocado para representar o Brasil durante a segunda guerra mundial. A notícia caiu como uma bomba para Celeste, que mesmo com o marido longe se mantém fiel ao amor que sente e pouco se entristece na esperança diária de reencontrar-lo.

Estava pronta e perfeitamente maquiada. Correu com seus sapatos brancos e fechados para ver o assado no forno. Era noite da amiga Luisa e seu marido Jorge virem jantar. Retirou as entradas do forno, serviria tomates recheados com pão, queijo e ervas. A mesa estava posta quando ouviu o barulho do Chevrolet deluxe que parara em frente a sua casa. Celeste tratou logo de abrir a porta. Luisa vinha em sua direção segurando um vinil de Jimmy Dorsey. Cumprimentaram-se com alegria e apreço.

– Entrem, venham logo. Disse a anfitriã.

– Amiga querida, como você está bonita. Comentou a moça de cabelos castanhos e olhos amendoados.

– Se eu não tivesse olhos apenas para minha Luisa, flertaria com você… Com todo respeito ao Beni, lógico. Falou com tom de piada Jorge.

– Jorge, querido. Quem vê decerto pensaria mal de você. De nós. Bem vindos, estou tão feliz que estejam aqui. Luisa, você está divina.

– Tome, coloque logo o Jimmy e vamos beber, pois neste mundo só com muita bebida. E riram divertidos.

– Você também está linda… Já eu, não sei até quando, o primo afrescalhado do Jorge que morava no exterior voltou ao Brasil, era ele que me trazia essas maquiagens maravilhosas. O que somos nós sem um pó de arroz? E gargalhou.

Celeste colocou a voz de Jimmy Dorsey e serviu o espumante.

– Um brinde ao nosso jantar e a essas duas senhoras, não se é todo dia que se janta na companhia de duas jovens tão adoráveis. Disse Jorge.

Conversaram sobre política, ou o que se sabia dela. Esse assunto sempre deixava Celeste entristecida. Luisa com seu ar boêmio refinado sempre fugia destas conversas, era adepta a arte e futilidades cotidianas. Seu vestido vermelho sangue realçada o castanho de seus cabelos e olhos. Casou-se com Jorge assim que o conheceu. Viram-se num bar durante uma madrugada e não demorou em irem morar juntos. Casaram-se no papel dois anos depois. Jorge era mais velho, não menos viril e enérgico, aparentava menos idade do que tinha.

– Este assado está muito saboroso, Celeste. Como fez? Quis saber Luisa.

– Receita do livro fabuloso que minha vó me deu… Receitas italianas. É muito simples. Você põe no liquidificador o alho, o óleo e o vinho branco. Manjericão e extrato de tomate. Coloque sal e pimenta do reino. Bate tudo. Coloque a carne na assadeira e cubra com o molho por vinte minutos, leve ao forno pré-aquecido por uma hora regando com mais molho de vinte em vinte minutos até dourar. Depois é só fatiar e servir…

– Delicioso. Afirmou Jorge. – Você bem que podia ter estes dotes culinários não é, meu bem?

– Meus dotes são outros, Jorge. Outros. O papel de mulherzinha é da Celi… Eu sou mulher de bar.

O clima ficou meio tenso e a anfitriã cuidou para desfazê-lo. – Ora! Ora! Sem brigas, ainda nem chegamos à sobremesa.

Logo mais na noite alta Jorge adormeceu no sofá depois de alguns drinks, considerava os assuntos femininos pouco atraentes. As duas amigas dançam meio embriagadas e cantavam junto.

“Beja-me. Beja-me mucho”

– Que homem charmoso. Comentou Celeste. – Estou com tanta saudade de Bení. Tem dias que nem saio do quarto.

– Não fique aflita, vai ficar tudo bem e logo isso tudo vai passar, ele voltará e serão muito felizes. Disse a moça de vestido vermelho a olhar fixamente para a amiga.

– Não sei… Decerto isso aconteceria se fosse um romance desses de banca de jornal. Faz tempo que deixei de acreditar nisso… Mas tenho esperança de que tudo ficará bem. Mas não sei… Sinto uma coisa aqui dentro do peito. Desiludiu-se Celeste, com olhar triste.

Luisa acariciou suavemente a face da amiga, que aceitou o carinho com delicadeza.

– Queria tanto ser assim como você, Celeste.

– Assim como?

– Dessa maneira… Ser apaixonada pelo marido. Gostar dessas coisas de casa, cozinhar. Querer ser mãe…

– Quem disse que eu sou assim?

– Não precisa dizer, nota-se.

Casei-me por amor, e gosto da vida que levo, eu sempre fui tratada como uma bonequinha pelo meu pai. Acho que me acostumei, embora não me sinta assim… Às vezes, não sei decerto quem sou… É como se eu não me reconhecesse. Admiro as feministas. As mulheres que enfrentam a vida. Que fazem alguma coisa, que deixam alguma coisa. Que estão começando a mostrar para os homens que a gente também é capaz.

– Você é sensível, Celeste. É uma flor do campo, resistente sem deixar a delicadeza.

As duas ficam a se fitar, aos poucos se aproximam e de olhos abertos encostam lentamente os lábios e se beijaram suavemente. Terminado Celeste se afastou colando as mãos na boca.

– Celeste!

– Não fale nada. O que é isso? Por Deus… Amo meu marido.

– O que foi?

– Vá embora, Luisa. Não sou dessas.

– Dessas? Dessas o que, Celi? Vamos diga… Dessas reprimidas pela sociedade? Sou. Se te conforta saber, tenho uma merda de vida.

– Fale baixo, vai acordar seu marido. Quer vergonha seria!

– Tenho uma merda de vida. Culpa deles, Celi. Deles… Luisa rasgou um choro engasgado.

– Perdoe-me, Celi. Perdoe-me. Não sou o que pareço… A bebida me salva e me condena. Não quero perder sua amizade. Foi a bebida.

– Só peço que vá, Luisa. Deixe-me quieta.

Luisa acordou Jorge e apanhou o casaco e a bolsa e o casal despediu- se foram embora.

(continua…)

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