As estrelas permanecem lá.

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São Paulo e suas noites convidativas… Paro na entrada do prédio em que vivo e sento no banco para fumantes, vazio… Rua vazia. Penso em solidão, na minha. Existem tantas formas de solidão, ninguém escapa. A solidão que me toma hoje é como nuvem passageira, essas que enfeitam o céu nessa primeira noite de primavera. Não ando solitário, sinto hoje a sensação de solidão – as tarefas cotidianas que preenchem meu dia dispersam o que faz parte da minha condição (da nossa). Meu olhar aprecia a vista. E aprecia também esse eu que está pluralizado em cada um dentro das janelas do prédio à frente, temos tanto uns dos outros. Venta, e sopra uma colisão de pensamentos e quereres que só servem para constranger minha incapacidade de compreender o que esperam de mim. Essa solidão me liberta do apego. Por vezes, tento entender os que acreditam que minhas passagens não são generosas comigo e que depender demais de qualquer um é o que eu deveria aceitar pra mim. Vou ser mais claro, falo de amigos. Somos carentes por natureza e internalizamos uma cultura de dependência da qual eu tento desapegar… E não foi por muitas decepções que mudei meu conceito. As decepções contribuíram é claro, elas são ridículas eu sei, mas tem o seu valor. A gente aprende e aprender a encontrar outras formas de amizade menos complicadas não é tarefa fácil; dado o tamanho da nossa complexabilidade. Sabe o que é? Vez em quando nos sentimos cansados? Cansados de que? Conviver, talvez! Seguir certas regrinhas tolas e que nos impedem de sermos verdadeiros e aceitos. Essa solidão que sinto tem me ensinado a me desapegar não das pessoas e dos amigos (e querer ter amigos) e sim da obrigação… Obrigação de unir todo mundo, arrumar empregos melhores, criar oportunidades, estar junto quando se quer ficar em casa de pijama vendo filme, atender o celular quando se está curtindo o silencio de um fim de dia. A vida das pessoas segue e são tão poucas as que fazem pequenos sacrifícios por você. Ninguém é tão importante assim, disse-me uma grande e sábia amiga num desses almoços de domingo regados a bom vinho. Essa solidão libertária me mostra algo mais profundo – voltado para o prazer que me faz feliz e que por mim cumpre minhas expectativas… Livros, ah, os livros… Como eu os amo. Bons filmes, do mais intrigante ao mais engraçado e o que é preciso repetir a dose para entender. Cinemas, bons CDS e amor pela arte, pela nossa arte (amo escrever). Causas políticas, sociais ou filosóficas. Linhas em branco e a possibilidade de divagação sem sentido, perdida em fragmentos. Maravilhosas horas de sono e novos colegas para correr pela manhã. Olhar para essa solidão, se dar atenção é parte de um equilíbrio precisamente constante. Poucos amigos e mais colegas é igual e menos expectativa e como resultado; menos desilusões. Será? Pergunto-me sempre, quais são as verdades da vida? Elas existem ou a gente as inventa? Fomos um ontem. Somos outro hoje… E amanhã quem sabe? Viver a própria vida é uma maneira solitária de ser feliz. O que me fez entender o que estou sentindo essa noite foi o céu… Hoje sem estrelas, mesmo sabendo que elas permanecem lá. Ah! E amanhã vai chover. A gente anda precisando·.

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