As cores da cidade são as cores da nossa alma

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Não havia muito o que se pensar, às vezes, ficava zonzo, sonolento… Lia, resolvi ler algo fora do meu padrão de leitura… nada de Clarice, Rubem, Martha, nem Drummond, talvez Quintana, Eça, Machado. Li o norte americano Dan Drown, não tenho grandes preconceitos. Prendeu, ele é bom, de narrativa ágil.

O que mais me chamava atenção não era isso, é o que via através das janelas. O verde do arboredo e uma extensão de casas lindas, de classe média alta da zona oeste de São Paulo. Um bem-te-vi que me dizia “bom dia” todas as manhãs e eu retribuía como se ele pudesse ouvir: bom dia, bem-te-vi, dormiu bem?

O canto da cigarra era atrapalhado pelo barulho dos carros e de noite tudo ficava calmo, silencioso – a sensação que tinha é aquela do ponteiro menor prestes a zerar as horas e findar um dia para começar outro. O sol era quem dava a cor, ele transformava a vista numa grande aquarela e mesmo assim, há quem diga que a cidade é cinza.

Vi dias nublados, tão melancólicos quanto minha alma. Naquele dia choveu! As árvores e lavandas ficaram faceiras, tenho profunda afeição por lavandas…

O interessante é ver casas tão grandes e a maioria são cobertas por telhas vermelhas, deixando o bairro charmoso. Em frente ao hospital se via uma padaria de doces saborosíssimos, cada sonho! Uma amiga muito amada me levava sonhos escondidos.  Ali dentro das janelas, em repouso, eu percebi que o mundo não parou e mesmo que a vista fosse uma só, encontrava algo diferente para apreciar todos os dias. No dia das crianças um voluntário me presenteou com um boneco do Shrek (eu um adulto), nunca pensei que aquele ogro me faria feliz, olhos marejados. Alguém, um desconhecido de alma tão altruísta que dedica seu tempo a alegrar os enfermos no leito, merece o céu. A vida vista da cama de um hospital muda qualquer ser humano.

P.S. foi nesse dia que eu entendi que cada uma das minhas reclamações e ressentimentos me destruiriam pouco a pouco. Nunca mais reclamei.

Escrito originalmente em outubro de 2015

Por Lucas Felix

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