Amor que acontece

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Ele tem um jeito de andar estranho, mas tem uma bundinha tão linda.
Ela tem os dedos dos pés bem magros e esquisitos e é dona de um sorriso contagiante.
Ele deixa a toalha molhada sobre a cama, não adianta falar, parece que faz para me provocar; mas aquele beijo de despedida com gostinho de café antes de sair, é essencial para que eu comece bem meu dia.
Ela assiste futebol comigo, o que mais gosto nisso é quando ela encosta a cabeça no meu ombro e eu fico ali sentindo aquele cheirinho gostoso que só o cabelo dela tem.
A mãe dele é uma chata e a gente morre de rir depois que ela se vai e ele nem liga.
O pai dela me odeia sem razão, ou talvez a psicologia explique, se ele soubesse como ela gosta!
Ele reclama que eu gasto muito, mas me adora bem maquiada.
Ela não gosta quando chego suado do futebol e a beijo, mas ama minhas pernas.
Ele odeia minha calcinha bege, diz que é brochante, mas nunca negou fogo, mesmo quando eu uso a danada da calcinha.
Ela diz que levo tudo muito na brincadeira, mas nunca deixa de rir das minhas piadas sem graça.
Ele pensa em filhos.
Ela em viajar o mundo.
Ele quer sexo todos os dias e eu também.
Ela adora ser chamada de minha putinha na hora H.
Ele ama quando eu digo: “isso cachorro”, quase enlouquece.
Ela está grilada com a barriguinha que adquiriu nas ferias, já eu adoro morder e encher de beijos antes de saborear…
Ela grita quando está brava.
Ela disse que me ama.
Ele me pediu em casamento, eu recusei, claro.
Ela não quer casar, disse que está bom assim.
Não vamos estragar rotulando o que já deu certo.
Ela ama drama francês.
Ele filmes nacionais.
E em meio a todas essas diferenças não viram o tempo passar, viagens acontecerem, problemas passarem, o casal de filhos chegarem, as mudanças de trabalho, de casa, de si mesmos… ajudaram a filha com a bissexualidade aceitando-a com todo amor. Ela não fez plástica e nem ele parou a cerveja, viram amigos queridos partirem… o ritmo das corridas transformarem-se em caminhadas. Mas foi no dia da formatura do neto, enquanto ela se aprontava e ele esperava, o por do sol parecia diferente. E ela veio a varanda, pronta para festa e ele a olhou com olhos encantados. Um olhar fascinado, ainda apaixonado. Era um olhar de amor.
– O que foi querido?
– A gente pode chegar um pouco atrasado?
– Mas porque nos atrasariamos?
– Quero ver o por do sol com você.
– Se é assim, podemos sim. A essa altura a gente já pode fazer o que quiser.
Sentaram-se abraçados na namoradeira branca. E ela disse:
– Foi tão rápido, não é querido?
– Muito rápido. Parece que foi ontem que me apaixonei por você. Sabe querida… você foi a melhor companheira que poderia ter.
E a beijou na testa e assim juntos ficaram a admirar o sol se por, entenderam que amor, amor puro, genuíno; é mais que sentimento, tesão ou paixão. Amor é escolha, a gente escolhe continuar e nutrir ou simplesmente partir.

      Maria Bethânia Brincar de Viver (Álbum Plunct Plact Zum) -Áudio Oficial-

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