Amanheceu feriado

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Amanheceu feriado, dizem que é dia de finados… Sei lá, que eles descansem em paz. A cidade está tranquila, sem aquela mesmice de cidade grande: transito, estresse, buzinas  e gritos ao volante. Só as arvores dançam faceiras com o sopro primaveril. O tempo está fresco e tive tremedeiras depois que meu irmão e cunhada se foram, vieram e me visitaram por um longo período. Preparo-me para assistir a novela das 6… E me lembrei de ontem, domingo; Júlia veio me visitar e causou em mim o gozo dos intelectuais…

Falamos sobre poesia, ela me apresentou uma poetisa que eu ainda não conhecia e por quem logo de cara me afeiçoei – Florbela Espanca. É impressionante como, através, de poucas palavras ela consegue despertar sentimentos pitorescos e escondidos, um drama sensível e profundo.

Tratamos um pouco da vida de alguns escritores que tanto amamos, eu lembrei a fase amarga e deprimida de Clarice, e o texto da Ligia Fagundes Telles contando quando sentiu que sua amiga tivera partido. Escreveu que fora avisada por um pássaro: Clarice se foi.

 Ficamos em silêncio.

Júlia gosta muito do Neruda, tem como não gostar? E sua vida é bem curiosa. E se tratando de poema, não pude deixar de contar que passei em frente o hotel em que Mario Quintana morou. E lemos alguns de seus poemas, inclusive, uma de suas indagações marcou a noite, “para onde vão os guarda-chuvas perdidos?”. Pois é! Queria saber… Que bela e sagaz sacada, Mario. Nos deliciamos em risos a genialidade do lirismo do poeta. 

E falamos também sobre as partidas sem despedidas, sobre morte precoce, sobre as incertezas das certezas da vida. Parece mórbido, mas não teve essa entonação. Pareceu uma prece, era mais uma reflexão, uma melancôlia de alma em palavras soltas no final de tarde.

Chegamos as crônicas do Caio Fernando Abreu, não apontou a lua no céu, mas a noite estava lá, chegou silênciosa. Lemos as “cartas para além dos muros”, a terceira e última parte é muito dolorida. E choveu lá fora e nas coincidências!

A liberdade também mata, aos poucos. Os livres sofrem de repente. A tarde foi tão prazerosa que agradeci. Terminamos comentando meio por cima a frase de Simone Beauvoir, que a Fernanda Montenegro declama tão lindamente, “não desejei e nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos”.

O horário de visitas acabou e Júlia se foi, seu marido, meu amigo – João, sentia fome e queria jantar com a esposa. Justo!

Ficamos o hospital, eu e o desejo de viver de literatura.

PS: essa crônica foi escrita originalmente no final de outubro de 2015, reeditada em novembro de 2018, três anos depois, relembrar essa tarde foi significativo.

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