A técnica limita a arte

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Lembremos o talento de Elis Regina, quem nunca, sentiu a angústia de Elis ouvindo “atrás da porta” e se divertiu com seus risinhos em “águas de março”? O espírito revolucionário e alternativo é despertado em qualquer ser quando se toca “como nossos pais”. O mais interessante? Elis não era compositora, só intérprete. Fico imaginando o Mario Quintana e o Manuel Bandeira sentados pensando nas regras de cada verso de seus poemas, na dialética. E Elizabeth Bishop sentada louca tomando seu uísque e pensando na quantidade de palavras, versos e estrofes e deixando de lado o que sentia e o desejo de expressar-se em suas poesias. E a loucura pulsante de Fernando Pessoa repetindo para si mesmo: técnica, técnica, técnica.

Fujo das técnicas de escrita, essas técnicas de simbiose, sistematizações e coerências de narrativas que só servem para estragar o texto; fujo como o Diabo foge da cruz. Respeito a gramática, as concordâncias e os tempos verbais, já a pontuação eu adoro brincar com ela. Esse pequeno desvio não se considera… A coisa tecnicista é a cruz do escritor, é um limitador. Poda mais do que ajuda. Aprisionamos-nos e deixamos o lado criativo em segundo plano, e se esse estiver em segundo plano, o prazer em escrever se torna preocupação: escrever para ser aprovado. Os grandes nomes da literatura tinham em sua escrita a sua própria genialidade, uma vez que depois dos gregos torne-se difícil algum aspecto de originalidade.

Citarei um exemplo da mídia, a cantora Sandy. Que bela voz, afinação impecável; notas precisas. Ela é aclamada como uma das maiores cantoras do país no sentido vocal (já o repertório não é lá essas coisas) , pelos críticos do mundo da música. No entanto, ela não me desperta nenhuma emoção. Aparentemente ela está sempre preocupada com o retorno no ouvido, o que me parece, uma grande necessidade em não errar; e acaba deixando de lado o principal: sentir a música – se entregar, dividir aqueles sentimentos com o público, nos fazer sentir. Gosto de ouvir a Sandy por sua melancolia, mas desde a música mais agitada até a mais triste ela é sempre a mesma. Usei a cantora para simplificar o que penso sobre a técnica. Não estou dizendo que a técnica não seja precisa, sim ela é. Só acredito que ela deva vir depois da criação. Técnica tem de ser lapidação e não construção. Assim como acontece com o diamante: primeiro pedra, depois lapidação e então preciosidade. Primeiro eu sinto e escrevo, depois escrevo novamente e então trabalho.

Sou um amador, e gosto de sê-lo. Torna-me livre. Ser livre é fundamental para escrever. Só escrevo quando quero, quando estou disposto. E eu o quero todo dia, a maioria da escrita é para mim, vez ou outra escrevo alguma coisa que cabe ao outro. Ao entregar sua escrita para alguém a gente entrega um pouco de nós. Ninguém estuda para aprender transar, as pessoas transam simplesmente, umas melhoram com o tempo e a prática e outras nem assim. Porque tenho que aceitar alguém me dizer o como se deve fazer? Esse alguém é também alguém como eu. A arte da escrita é instintiva, vem no seu pacote. É como o ato de mamar, colocam-nos no seio de nossas mães e já sabemos naturalmente o que fazer. Alguns mesmo não conseguindo também sabem como se faz – só não conseguem. E não há quem ensine.

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