A possibilidade do nada

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Desde muito cedo aprendi que o trabalho é o que deveria mover nossa vida. Sempre tive duvidas, mas aceitei isso e não me arrependo. Aos 21 comecei a trabalhar e antes disso sempre fui muito dedicado aos estudos. Aos 23 me tornei workaholic. Fiquei viciado no trabalho.

Hoje entendo como uma canalização criada inconscientemente por todas as minhas inseguranças trazidas da infância. Quando pequeno sempre fui um zero a esquerda para minha família.      Quando grande assumi um papel importante num plano de carreira e então, pela primeira vez me senti útil e importante de verdade. Queria ser cada vez melhor, me lembro como hoje, foram seis meses sem folgar e por vontade própria… até que isso me levou a uma estafa absurda e uma enxaqueca que me deixou três dias de cama e atestado.

Como dizem, alguns males vem para o bem, por causa dessa situação que me obrigou a ir ao médico eu recebi meu primeiro diagnostico bipolar. Capaz!

– Nem pensar. Nunca pensei. Para mim era só uma enxaqueca.

Procurei ler um pouco sobre o assunto e muito fez sentido. Mas não comprei os remédios, não procurei terapia e voltei ao trabalho, canalizei toda a minha energia nele. Só que dessa vez folgando quando devia folgar. Só aos 29 anos passei a apreciar verdadeiramente as folgas, passei por algumas empresas e uma delas eu tinha o final de semana todo livre. E então o workaholic foi morrendo. Aprendi a gostar de dedicar tempo a minha casa e a culinária, arte que minha vó me ensinou com maestria.    Tomei gosto em receber amigos e isto, além, de fazer bem para minha alma, me tornava mais criativo e mais produtivo. Foi nesse período que resolvi dividir com o mundo algo que sempre fiz, desde criança: minha escrita. E assim comecei a deixar meu lado artístico e oculto falar.

A chegada dos 30 faz nossa chave mestra mudar… Escrevi meu primeiro livro e publiquei aos 32. Foi desafiador! Ainda aos 30 aceitei a bipolaridade, depois de muitas crises e desequilíbrios passei a tratá-la e levar uma vida normal. E hoje aos 33 tenho que equilibrar o tempo. Lavar roupa, cuidar da casa, ir ao supermercado, cozinhar, ter tempo para amigos, médicos e terapia, todas as obrigações do trabalho, escrever o segundo livro, cuidar do blog, responder leitores, ler muito e ainda encontrar tempo para se capacitar. E vez em quando arrumar tempo sair para caçar e… cansei só de descrever a rotina. Se me perguntarem o que eu mais gosto de fazer, eu respondo comprazer: eu gosto de fazer nada. Isso, nada. Ficar na cama e levantar quando não quero mais. Não ter a obrigatoriedade de ninguém. Acordar e me perguntar: o que eu quero fazer hoje?
Uma das poucas vezes que pude me dar esse luxo, foi nas ferias, que mesmo assim, estavam comprometidas com as aulas na faculdade. Não tive aula e só acordei quando meu corpo despertou e pensei, hoje não vou fazer nada, que delicia! Acordar colocar aquele filme que você se promete faz um tempão e tomar café na cama e ficar ali de celular desligado. Outra vez que não fiz nada, depois do almoço tomei um banho bem delicioso e dormi quase a tarde toda; acordando as 17 horas. Que coisa bem boa… e então peguei um livro que estava na minha lista de espera e li o restinho da tarde e noite adentro. Terminei pouco antes da meia noite. Um livro encantador da querida Olivia Byington, a historia de seu primeiro filho e o titulo: o que é que ele tem.
Aliás, eu recomendo muito. Agora aos 33 anos minha maior ambição é essa: ter a possibilidade de não fazer nada com mais frequência. Acredito que esse nada ao qual me refiro, talvez seja, a verdadeira maneira de apreciarmos as coisas mais prazerosas da vida. Já as pessoinhas que são viciadas em trabalho como eu fui, só posso dizer: o tempo vai passar, as incertezas da vida vão continuar, você vai adoecer, não dormirá bem e vai gastar muito tempo tendo e não entenderá nunca a grandiosidade do que é o ser… no final, você vai morrer como todo mundo, com uma diferença – sem ter se permitido ser você mesmo e nem ter vivido tudo o que poderia ter te enriquecido de ser alguém e não alguma coisa.

Hoje é segunda-feira, entrarei as 14 no trabalho e estou de férias da faculdade… acordei cedo por acaso, vi um filme e terminei este texto, agora tenho bastante tempo ainda para ficar aqui, exatamente assim, Sem fazer nada nessa manhã de 14°C. Bom, vou preparar um chá e terminar um livro bem quentinho na cama, não vou poder fazer nada o dia todo, mas até o meio do dia da tempo.

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